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poesia de tipo analógico

2015

Puxo uma gaveta barulho
grude e ranço de pó metálico
pinço letras de pele áspera
mastigando a névoa espessa
com gosto de tinta gráfica.

Olhar em pretérito imperfeito
nas pontas dos dedos calos
à marteladas de anos
o teclado oleoso desgastado
enfiado nas minhas unhas
chumbo sujo
os espaços
adoecendo meu corpo
linhas, parágrafos.
Impropérios rabugentos
todo um zelo improvisado.
Umedeço os lábios, manipulo cíceros
componho batidinhas estalidos;
tiques taques tinindo
na barra de espaço guarnida
encaixe quisera perfeito
enchendo a rama de brancos
matéria dura com que ponto a ponto
abro
luzes milimetradas no retrato da página.
Suor e músculos extenuados
ferramenta desta máquina cheia de
birras;
Do meu ferro fundido em pele depreendem
vapores de óleos carbonatos
solventes
as potências dormem inda rugindo
escritos que secam na mesa.

Laptop em baixo do braço fecho a porta da oficina.

Pego na mochila meus dedos afundam em trinta
quarenta anos se assomando
feixes folhas propagandas catálogos
manuais jornais e sindicatos
escritores e jornalistas animados
um ofício insurgente, fulgor
calor do chumbo derretido risos
velhas máquinas, engrenagens que encrencam
editores que encrencam
profissionais de fino trato
tanto quanto pesadas as mãos mais sensíveis
ao relevo dos livros,
letras.

Tipos como estes que já não se faz,
que marcam como nada que hoje se faça,
mas cuja alma segue vivaz
em cada prelo cada prova
cada minerva operante
linotipos restauradas
heidelbergs retumbantes
orquestra que desbrava
metal papel tinta graxa.