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pós-modernismo e vapor /
modernismo e vapor

2017

pós-modernismo e vapor

logo vem uma imagem de nuvem
mas sabe-se que não é nuvem
o cansaço que impera
decreta: impossibilidade de coisa
outra do que: nuvem.
Suspiro e espera
conformismo e entrega.

É nuvem então,
a palavra a se trabalhar
o lento crepitar interno
e externo
de um alinhamento que se procura
um alimento que faz-se cura.

Por um lado: intestinos que se desdobram morosos
dobras que se copiam entre órgãos
fluidos que se acomodam marotos.

Por outro: um não-sei-não-quero-saber
que dá medo
e preguiça
ficou fora de moda
a palavra “mistério”
junto com “nuvem”;

é o que tem para hoje.

Podemos pensar também em negrume, e buraco negro, e obscuridão, e obliteração,
e obsolência.

Mas o que se tenta fazer é uma descrição
de algo que se esquece
que não se lembra
que se nega, que se encrenca.
Não haverá esforço em nomeá-lo
mas anotar-se-á
dificuldade e desinteresse
em precisá-lo.

modernismo e vapor

uma nuvem
não é uma nuvem
coisa chata isso
plana embora não seja
chato isso de nuvem
de não saber outra imagem ou referência qualquer que descreva
tiques taques nervosos
estalos e convulsões
onde é que se dão?

e só consegue pensar em tempestade
o avião cruzando a imensidão
as luzes que se consomem
raios e trovões.

chato isso não
é bem
isso não é
exatamente isso
que precisa dizer convergir expressar exprimir
uma coisa outra que tanto se apega
à pobre imaginação
e fica a nuvem negra que paira
relâmpago de raiva
cérebro obsessivo de uma frustração obsessiva que não sabe

como mais poder-ser-ia isso
que não nuvem que não negro
que não estalos e estalidos
e malmente se convence
isto é aquilo e isso
existe,
assim mesmo

Pois, então.
Que fique com a nuvem mesmo.
Tediosas noites de chuva.

Sem saber do que ruge cá dentro
sem certeza do crepitar na janela.