TEX// p-linguistica

linguística afetiva

2016

suas carências tem a mesma língua sarapintada das minhas carências
dialéticas diferentes  – mas elas se entendem

elas brincam gostoso
melhor do que nós pudemos brincar
degringolamos
apontando as espinhas na cara um do outro
chamando de feio
acusando retardos
sangrando olhos e teimosias
e caretas

caretas de seres mutilados

mas as carências nem ligam
olham pro espelho
e atravessam ele
e pulam nas poças e chafurdam na lama e acham graça
serem espertas serem perversas serem feitosas
toda feitosinhas

ladrão polícia
julieta romeu
mulher homem
queijo chocolate                                                                                          
anjo diabo
cambalhota pirueta estatelam no chão machucam e choram e berram
esperneamos
aumentam a voz uma com a outra mas é a nossa voz que sai e não delas
é a nossa dor que dói e não delas
nossa boca que morde nossos dentes que ladram nossos ouvidos que lacram
nosso silêncio
que cimenta

que bom que nossas carências
sabem também linguagem de sinais
também mimimis e chorôrôs sua gramática
ô trapaceiras danadas! com seus aviõezinhos e piscadas
seguem traquinando

na verdade só elas para se entender
que eu? eu não entendo, não mesmo.