De como o personagem utilizou de seus métodos e astúcia para salvar aos lamentantes.

2008

Pegaram um trem sem nome que não para em estação alguma. É que o pai tinha lá que resolver uns assuntos com a argentina que era mãe de uns filhos que não eram irmãos daquele que trazia consigo.

O rapaz tinha lá seus quarenta e nove anos, acompanhando o pai por motivo de herança. Deram eles numa cidadela sertaneja  – mas, não se engane, o lugarejo tinha suas massas cinzentas; tanto das cheias de janelas quanto daquelas que bloqueiam o sol.

Com o pai já sumido pelos becos e ruelas, sobrou ele só, num cruzamento de nada com coisa nenhuma. À sua frente, apenas uns frangos assados abandonados por cães baldios e uma cruz surgindo detrás de uma construção particularmente destruída.

Decidiu ir naquela direção, penetrando a secura daquela localidade sépia, esquecida pelo tempo e pelo vento. A tal cruz se assentava no topo da Paróquia de oferendas à Nossa Senhora das Lamentações, uma igreja cor de vinho construída num palanque na beira de um lago, por cima de onde tinha uma ponte.

Rastejando por cada milímetro da extensão da ponte e do fundo do lago, que há décadas não caía uma gota d’água naquele buraco terroso, tinham lá os lamentantes, patéticos seres que pareciam ter emergido dos panos de prato sujo duma mansão qualquer. Prostrados ao lado de folhas amarelas de jornal, muitas das quais falsas, lamentavam os inúmeros noticiados: aparições, fantasmas alojados na igreja, possessões, exorcismos mal sucedidos, assombrações, maldições, estátuas que sangravam dos olhos, ilusões financeiras, desilusões amorosas e toda sorte de rumores sobre aquele lugar maldito.

Os lamentos, assim tão juntos e fortes, faziam retorcer os galhos desfolhados e espantavam as almas dos covos. Era uma verdadeira sinfonia certa a deprimir o mais gozante dos tolos e ferir profundamente aos mais puros de desesperanças. Dizia-se pela sujeira da cidade que os lamentadores eram exatamente causa de tudo aquilo que provocava suas lamentações, sendo que seu conto de morte enlouquecia a eles próprios, que procediam a se matarem a eles mesmos – incidente tão comum que a paróquia instalou uma forca pública em seus portais, com a engravação: “Se é pra morrerem, que se morram nas mãos de Deus!”. Aliás, a Paróquia e redondezas era o lugar mais vívido em uns bons quilômetros, centro de atenção dos turistas que buscavam experiências sobrenaturais, paranormais.

Vendo essa situação macabra, nosso querido cabra homi de um personagem teve um pensamento claro e único, se bem que dos mais estúpidos: “Estou aqui para salvar esses seres encapuzados, mensageiros da desgraça, os lamentadores a que chamam lamentantes! Essa cidadela empoeirada não mais vai ser vítima desses demoníacos gárgulas de sanguessugas!”. Ou seja, como o mais óbvio dos homens há de apontar, ele não era dos mais iluminados. Mas, sigamos com sua estória – que estória não existe mais.

Sua primeira ação em nome de seu objetivo foi deslanchar em pertinente corrida pela ponte, surrupiar uma saca de uma pilha de lixo e notar o brilho despolido das esmolas espalhadas por ali, antes de alcançar a mencionada forca, cabeça já coberta, e aguardar ali, na ameaça de morte.

Ao entardecer, não menos apaixonados os lamentos perturbantes, surgiu uma freira dos meandros da igreja, tão magra e pálida que, caso ao invés de carregar estivesse usando os panos santos, poderia ser confundida, e bem facilmente, com um dos lamentantes – e dos mais penosos.

“Que faz aí, na beira do abismo?” foram as palavras ocas que vieram emitidas de sua boca. “Cansei de lamentar. Quero ser o lamentado, que me mato e me morro pra voltar à guisa de assombração, mais praga vou rogar nesse lugar!”, foi a resposta que ecoou pelo concreto frio das paredes. “Mentira, que você pode até cobiçar a asfixia, mas não é nenhuma droga de lamentante! Agora desce daí ou vou te arranjar uma palmatória!”.

Após um chazinho de erva daninha numa banque de orações, a freira chefe, ou qualquer a alta posição que ocupasse, a que todos chamavam Mãe, explicou ter nome Mae, e disse também que todo lamentador usa sapatos, que não ousam pisar terreno que não seja puramente humano: a igreja sagrada demais. Assim soubera da espécie de seu convidado, a quem forneceu apenas suspiro ao receber as intenções. Que os lamentantes são como peste bicho parasita, dedicados em exclusividade a maldizer a cidade às ruínas.

“A mim, não me importa, pois que eu ei de salvá-los!”. Pronunciou sua proclamação, ponto final na conversação. Alojou-se ele na torre do sino das lamentações, que vibrava seu som gutural sempre que um lamentador optava pelo fim de sua vida. E ficou ali, até que um serviço se comprovou necessário de sua ajuda. Ouviu o falar dos crentes sobre um acidente que estragou a única estrada que dava na cidade.

É que uma frota de caminhões rumo sul tombou, todos os quatro caminhões e meio, esparramando todo o carregamento de alpiste por tudo em volta, deixando a problemática do que fazer com toda aquela ração de animais menores, tendo o motorista e seus frotistas já concertado seus carros e ido buscar nova carga sementosa.

Chegando no local, o coitado nomeado apenas “personagem” teve epifania daquelas que só os mentecaptos experimentam, resoluto em sua idéia do que fazer quanto à quantidade de alpiste forrando a estrada. Aproximou do encarregado da limpeza da bagunça, um macho grande e, em fraqueza do que ele mesmo admite, burro. Não tendo na cidade balde, vassoura ou disposição bastantes para realizar o trabalho de recolhimento e redistribuição da alpizarada, o único resultado que sua diminuta mente conseguira ruminar era esperar que a fauna aviária local deleitar-se longamente num banquete que duraria meses.

A solução proposta por aquele que acompanhamos, porém, soou muito melhor que esperar pela boa-vontade da passarada. E fizeram assim, conforme a mente perturbada: ofereceram uns trocados e uns miolos de pão aos lamentantes, em troca de sua força de trabalho. Não pense, no entanto, que os lamentos cessaram, que trabalho não corresponde salvamento. Foi em constante lamurio que os lamentantes recolheram, com suas próprias mãos, mãozada por mãozada, toda a alpizarada. E foi a pé que levaram sua bagagem ao riacho próximo, magérrimo córrego duma palma de profundeza, mas as águas mais brabas que não se imaginaria estarem em porte tão pequeno. Toda a espessura de alpiste foi lavada de imediato para fora da visão de qualquer um. Estava aí a resolução. E mal foi condecorado herói, nosso personagem retornou ao puleiro de corujas que vinha chamando de morada.

Mas é que não acaba aí. No dia seguinte chegou notícia da cidade maior, contendo informações relevantes à repentina falta de água na desértica região. Acontecia que a represa estava entupida pela misteriosa aparição de uma alpizarada. Dado o alarde, Mae denunciou, e não demorou a que o responsável fosse posto a caminho da represa, para que concertasse o que tinha quebrado. Acesso, endesertado como estava o local, foi fácil. Análise dos dnos rápida. Concertamento retardado no sentido de problemas mentais da palavra.

Estava assim a situação quando nossa figura chegou: nos dutos do paredão de concreto, só alpiste se via. Oras, bastava fazer a água fluir novamente, e que as sementes permanecessem em seu novo cômodo!; ditou ele, saindo a buscar os materiais preciosos a seu sucesso. Bastou o encontro com uma velha mina antigamente abandonada. Lá achou uma picareta, e bastou uma picaretada prudente numa rachadura fendada para fazer desmoronar o volume d’água d’outro lado e as pedras concretosas em cima do infeliz imbecil, que, consertada sua bagunça, morreu de sua própria estupidez.

Uns dias que talvez formaram semanas depois, o lugarejo que alojava a Paróquia das Lamentações, com todos os seus lamentantes, sofreu de particular miséria, toda sorte de desaventuras se deixando ocorrer. A vasculhar o sino, uma noite, Mae descobriu a fonte de tamanho azar: a assombração de nosso personagem, que voltara como fantasma, e com gosto amargo de vingança e brilho breu de negrume.

Estando insuportáveis, e mais fortes que sempre os lamentos dos lamentantes, os moradores do lugarejo imploraram ao murcho espírito do personagem que deixasse o local, a que receberam a seguinte resposta: “Façam-me imperador – não, melhor, governador, assim não tenho que sair imperando por aí – das banana. Deixem o glorioso pseudofruto invadir tuas terras!”

Mas toda bananeira plantada recusou-se a aflorar. O mesmo repetiu-se quando o mandato mudou para melancias, abóboras, maçãs e jiló. No meio tempo dos fracassos, aproveitou-se o governador para coletar os lamentos dos lamentantes. E, finalmente, ao se cansar dos esforços infrutíferos dos cidadãos, usou de toda sua manha, estupidez, e lamurioso poder lamentoso para fazer de suas fantasmagorices, transformando todo o solo infértil da da cidadela num infinito e batatudo tubérculo.

E é dessa maneira que ele salvou os lamentantes. Foi requerido tamanho poder para a realização da façanha, que além de desaparecer num puffi, o personagem sugou todo o lamento disponível nos lamentantes, que todos, reparando em sua nova condição, se tornaram fazendeiros e negociantes de massa de batata.

A lagoa encheu depois de seu longo hiato, o pai nunca mais foi avistado, e a Paróquia, sua fundação abalada pelo tuberculoso solo, foi desconstruída e reerguida na forma da Paróquia de oferendas à Nossa Senhora do socorro aos tuberculosos, para onde peregrinam os afligidos pela doença. Assim cessa nossa estória.