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2017

“Como você se amplifica?” (Inscrição para a residência Contágio 3×3, sob direção de Patrícia Bergantyn no Sesc Pinheiros, abril/2017)

Re: Quando eu me divirto, assim, pra valer.

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  1. Meu impulso imediato é seguir pela negativa: eu não me amplifico. Eu amplifico o que está em mim introjetado, codificado e atuante. Mas nessa relação estou sendo apenas um através de forças que nem sempre tenho como nomear, que me regem quer eu tenha ou não consciência ou consentimento. Posso amplificar a voracidade das bactérias por néctares açucarados, a contundência das políticas identitárias, ou participar do número de trabalhadores informais no Brasil. (Tudo isso ao mesmo tempo, misturado e interdependente.) Posso ser reencarnação de um homem inglês da era vitoriana, peça do jogo kármico que um sultão do oriente médio não sabe estar jogando. Algo entre o efeito borboleta e os sistemas de manipulação de massa.

Para que eu me amplifique, esse eu precisa ter uma definição que possibilite reprodutibilidade, continuidade, e diferenciação dentro de cada novo conjunto de circunstâncias. Quero afirmar que sou indefinida em relação a meu mundo, que sou um punhado de ar fazendo vento, quero usar a imagem do mar, a do deserto, ou a do planetinha azul no universo. Duvido de mim mesma, do “mesma” e do “mim”.

De todo modo algum barbante alienígena garante uma forma irrevogável à minha presença (que por sua vez, a aparição deste texto comprova), e qualquer reconhecimento possível – qualquer palavra possível, qualquer criação, abrir de olhos, existência possível – do que por hora chamarei de corpo. Posso habitar a China e a nona dimensão, mas negar este epicentro gravitacional seria de alguma ingenuidade. Estou aqui escrevendo, e sinto a dobra do meu abdômen contra a coxa elevada, e um outro corpo chamado computador, e essas letras aparecem numa tela. Se isto tudo está ou não na China ou na nona dimensão (e prefiro acreditar que estão), não interessa. Acreditar ou não em deus é irrelevante. Não são os leitores da China nem da nona dimensão que meus sentidos atuais serão capazes de afetar.

  1. Primeira chave: “meus sentidos atuais”. Posso me amplificar através dos meus sentidos, amplificando meus sentidos: senso-comum: drogas psicoativas, aparelhagem biotécnica, terapias sensoriais. Também o consumo e deglutição de informação (percepção é uma categoria de informação). Segunda chave: “capazes de afetar”. Então através dos afetos também posso me amplificar. Chegar e ser chegada. Multiplicar consciências, entendimentos e percepções, sistemas de polinização comunitária transobjeto, transujeito, transujobjeito. Todos em todos.

Cada chave um limite correspondente: “atuais”, “capazes”, “meus”.

Terceira chave: “meus leitores”. A produção de escrita, e colocar essa escrita aos olhos (mas não só aos olhos) para permitir e fomentar (e muitas vezes impor) a ação da leitura pelo outro, fazendo com que ele adquira (voluntaria e involuntariamente) qualquer coisa de mim que vou dizer me amplificar. Já devo, a esta altura, assumir que tanto quanto a crença em deus é irrelevante, também a crença em partes e fluxos e identidades e nomes e palavras e todo ato divisório também é irrelevante. Pois quando me amplifico, amplifico tudo aquilo que carrego e disperso, e aquilo tanto se amplifica em mim quanto me amplifico naquilo – somos o mesmo. Somos. Sumos. Somamos. Humanos. (Lembro uma cena de uma mulher de duas cabeças, por definição horrível, e no entanto analogia comedida da realidade cotidiana.)

Paradoxo: escrever é ato de criar limites. Amplificar é ato de dissipação.

  1. Ato de dissipação. Expansão. Preenchimento. Ocupação. Colonização. Resistir pelo: não amplificar, não reproduzir.

  2. Ainda assim, este corpo particular ainda desprovido das habilidades (e amplificações) necessárias para novas formas de comunicação (telepáticas dentre outras), se entretém e se amplifica pela escrita. Tenta fazer cócegas via correspondências de significantes e significados, operar mágica e mistérios (não sei como isso funciona) capazes de expandir-me para além pele de um modo, um pouco suspeito, um pouco mais crível, que as incursões na nona dimensão. Um modo caracterizado “suspeito” e “mais crível” pelas forças inefáveis que se amplificam por e comigo.

Acontece que: eu gosto muito de escrever e entortar as palavras e entortar os pensamentos. Tirar do rumo. Divergir. “Distrair, entreter, recrear. Recreio. Desviar, fazer mudar de fim, de objeto, de aplicação.”

Esses jogos de ilusões.

Me divirto muito com isso.

  1. (Cabe aqui uma crítica autocontida à tautologia inerente de quem se dedica às letras. À tautologia inerente, na verdade, dos agentes de cultura em São Paulo. Os agentes da dança são o principal público de suas próprias pesquisas e produtos.)

  2. Excitar no outro o que excita em mim. O estado pleno de excitação. Alegria. (E assim tropeçamos na idéia de “contágio” prevista por este projeto. Prometo que não escrevi este texto de caso pensado para chegar até aqui.) A alegria é contagiante. O riso é contagiante. Me divirto para divertir os outros, e para que os outros também se divirtam com qualquer coisa aquela que os divirta: eis o modelo ideal de mundo que persigo.

A alegria de se deixar levar, que pode ser a alegria de se amplificar, que pode ser a alegria de se reconhecer além e depreender-se de um “si” inerente. Ser todas aquelas coisas que sabemos que não sabemos que somos, sumos, somamos, humanos.

  1. A caixa de som amplifica ondas sonoras, mas a despeito disso não nos damos ao luxo de pensar que ela agora é igualmente onipresente e toda-abrangente como a música que transmite. (Ela pode excitar no outro o que excita nela). Penso que: vale a pena nos conceder esse luxo. Ao menos, parece divertido de se pensar.
  1. Poderia ter dado uma resposta sobre amplificação através da realidade corpórea, da presença, da potência. Mas talvez isso tivesse sido menos interessante. Obrigada pela oportunidade.