TEX// fotografia

Inventou a fotografia um passado permeável?

2012

Quisera fosse serendipidade, mas admito que busco com certa frequência os nomes de meus amigos neste maravilhoso engenhoque chamado google. Numa dessas estranhas sessões de curiosidade, tédio e perversão, dei com várias fotografias de um tempo em que não conhecia um desses nomes, em que a combinação de palavras me era nulidade, um tempo quando não estávamos na vida um do outro, e quando ainda o próprio não sabia do porvir dos últimos dois anos que então estavam ainda passíveis.

Como é estranho ver os traços, reconhecíveis traços, de quem se conhece agora mas não antes. Essas pequenas janelas por que invadi um passado que não vivi. Tudo ali se recobre de imediato de uma espécie de nostalgia às avessas, não guardam familiaridade, mas se recompõe por imediato ao que já se sabe, sem comoção alguma te olham de volta como olhariam às paredes que estavam e estão dentro de lá, quase categoricamente apreendem à lógica da sua própria sapiência e versão dos fatos, se embaralham e camuflam para satisfazer a ordem que seu futuro agora lhe impõe, e com que os novos olhos lhe revestem.

Nos traços das pessoas, seu desenho, vejo o substrato do que são agora, deslocado para este outro corpo de plástico, estes bonecos que atuam em diorama para justificar o futuro. As fotos não mostram o que foram, são engrenagens do que está aqui agora, regresso no tempo como profeta do determinismo. Só agora faz sentido falar em destino.

Os atores ali ainda não carregavam os fardos que lhes trago, sua interpretação era descompromissada. Suas relações não podiam ser fraseadas como tal. Muitos laços ali se refizeram multiplamente, se alongaram, romperam, tencionaram elasticamente na periferia da visão, comprimidos no quadro da câmera, invariável. E ainda a mão que aperta o botão! Quem foi você?

Saberia meu amigo dos resultados daquele processo em que se meteu? Ali se comprometia. Sentiria meu olhar atravessando o tempo e o visitando noutro estado seu? O processo em si, provável lhe era um mistério. Mas o caso é que não o vejo. A pessoa que se me apresenta é outra que jamais reconhecerei. A cada foto de cada tempo penso ver quem me agora é próximo, mas o efeito é o mesmo de buscar quem se espera na multidão, falsos positivos em todas as partes, em todos os tempos.

Sua essência deslocada; não sei se por ação mundana ou lances da percepção, seu rosto desconjuntado em cada conforme estranhíssimo que surpreende. Perscruto as imagens com muito apego e quase desespero de ler ali inscrito o futuro que vivo, de também ali ter existido, encontrar um lugar comum dessas realidades cruzadas, desprovar a coincidência, a sorte e o erro. Quietas não me respondem, sequer respeitam.

Há algum tempo que não desenterro do fundo das roupas o gaveteiro que está no armário com todas as fotos de infância. Olhando aqueles álbuns meus olhos transbordavam, por quem eram aquelas pessoas, por não saber tê-las conhecido, pelo futuro estragado, e agora incorrigível, que lhes tinha provido. Mas com quem cuja existência era secreta, quem de fato inexistia, sinto diferente. Estas aparições de anos passados são artefatos arqueológicos, são peças de artes e maquinações de que se sabe apenas o resultado, qual problema exato resolvido que a prova foi queimada e agora se reconstituem as cinzas, podendo tomar muitas formas ainda. Aqui o desenrolar é contínuo, a coisa pretérita boiou à tona noutra vida que é minha, entrei sem convites para a surpresa de vagas similitudes a uma presença concreta de minhas imediações e época. Difícil não perguntar – onde estava este tempo todo? Que fazia antes de desabrochar a meu lado? Que fazia você, replica; entretanto meu caminho foi medido, passado e recontado, ocorreu uma vez e não se repetirá. Foi tudo premeditado. Tudo fora dele permanece cambiável, imutável, altamente cambiável.

Que dizer das fotos despejadas sem carinho nesta expansão enorme e repetitiva, neste labirinto que mero nome navega e leva de volta a quem você nunca foi, querendo contrariar? Posto ali para deleite que não meu, mas público, público e por tanto para meu acesso, tal qual caderno aberto, íntimo ou não está para ser lido, como deve – senão, porque teria escrito? Por mão sua ou não, ficou marcado, meu caro, e o que assim está é meu.

Tudo a partir de agora posso retocar, o que me disser haverá profundidade para trás, as peças são imantadas e te abrigam, nem que por associação, aproximação, ou ainda a alma que quer retornar ao corpo seu agora e cá. Que tremenda malícia querer disjuntar as partes do todo, o molde da obra. As coisas se apresentam todas, tolas e unas como o são, para desvela-las só correndo para trás sem deixar de olhar a frente.

Imagens ou outras manifestações que fossem, de agora até cá ficam massas cruas para serem moldadas, que meus preconceitos cozem e batem, pre, reconceitos dando volume ao inverso, a corpo de outros, pra encher espaço meu, densificado e complexados por essa emanação louca que é a vontade, ganância e enganação de querer te conhecer via dejetos dum tempo que meus olhos não acessam e tampouco enxergam. O que a imagem mostra, você talvez tenha sido, mas o que vejo agora – e o que agora te ponho – é o que de fato é, será. Os manequins nas fotos posam só para rechear-te mutuamente, botar a esperança de autonomidade, contudo a estrutura que te ergue são meus olhos e mãos, meu corpo e os outros. Reconheceremos sua estória? Reconcilio jamais.

Mas oras, está entregue já, sob pena de não haver você pisando no mesmo chão que eu. As redefinições, afinal, são magma volátil que por sob nossas carnes já operam infindáveis, dando um rumo tectônico a essa analogia da terra, um nó outro na falta de compreensão desses processos da memória, identidade, conciliação. De ver o outro ali então quando um então não te existia. Vejo seu passado, que você não viu, e que não vi, mas vivi pela porta da prata agora virtual, digital. Incluo-me, excluída. Permite-me? Ficou tarde, as fotos já vi. E quando olho para meu próprio retrato, vejo também com estranheza penetrante, invado tanto quanto o faço na imagem alheia, casas de bonecas ou de fantasmas, casas decaídas – toda foto é uma ruína para ser explorada, um esqueleto para se pendurar novamente as peles. E o faço de bom grado sem no entanto espantar das narinas o cheiro fétido e a mania de voyeur.

Fixado no papel, nada nos pertence! Já não nos somos ali, é nosso só o que reclamarmos que assim fique e seja. Que é reconhecer. Como renegarmos a doce familiaridade? O que a imagem mostra é só talvez o que tenhamos sido, e no que diz aos snapshots que são a ilha em que sem sutileza atraquei, só você tem mapa, é guia desta coisa desconhecida – seja espaço, tempo, passado, memória, registro e história. No entanto fico aqui perplexa, que as fotos emanam desses espíritos doutros que fomos, para nós e para os comparsas que a vida nos renegociou, pessoas que então se poriam estranhas e com quem nunca nos relacionariamos naquela ou nesta outra forma. E no entanto. Aqui estamos.