TEX// estrelas

como todas as estrelas são fingidas, não devem ser creditadas.

2012

Numa cidade dessas, não se acontecem essas coisas. Numa cidade dessas, que nada acontece, que é perfeita pra essas coisas, de tanto que é esperado que não se aconteçam essas coisas. Que não se aconteça nada. E nada acontece. E numa cidade perfeita pra nada se acontecer, algo acontece. É nem cidade, prático vilarejo, no sopé de uma montanha, mais um monte que pico, gramado e pacato. Casinhas de alvenaria e madeira, arbustos fartos – ocupação geral do povoado, dependente de poços para abastecer água.

O dia que ela apareceu, os poços secaram. Os poços haviam secado antes, sempre secavam, e quando secavam as pessoas saiam nas caminhonetes para buscar galões de água na cidade vizinha. Quando ela apareceu, apareceu embaixo de uma árvore, sentada de pernas cruzadas; ninguém a conhecia e ninguém parava. Todos notavam, e bem se importavam – mas quais as chances de algo acontecer numa cidade daquelas? Algo que o valha? Nenhuma eram as chances, então bem que não tivesse acontecido e bem que ignorassem – uma cidade daquelas não estava preparada para ocorrência que fosse. Não olhassem, não ocorresse.

Um único cidadão problemático tomou interesse pela moça, agarrando-a pela mão e arrastando para sua casa. Chegando à entrada, uma varanda de toras de costas para o monte pedregoso, ela cessa as resistências e se atira a uma cadeira abaixo de uma janela alta, violenta se recusa a todos os custos a colocar pé no interior do lar; inúteis as súplicas do homem.

Senta lá e fica. A pele escarlate. O cabelo reto cinzento de quase velha. Encara o céu e não tem olhos – nas órbitas, as nuvens.

“Que coisa”, ele sente, se pensássemos o que não sabemos sentir, adentrando a casa, cara amarrada pela ressaca, “alguém espelha o céu.” As nuvens passando num fundo azul, azul, tão azul.

Cata uma cerveja e se acomoda no sofá surrado, pernas pro ar e o braço pendente. Toma uma e encara o teto, vira a cara e repara: não fechou a porta, não fechou a janela. Pensou que tinha fechado? Fechou nada. Coisa séria numa casa toda de madeira. A vista seria a vizinhança, não fosse o pé vermelho da moça estirado na soleira. Gira um pouco a cabeça pra ver também os dedos dela, roçando a beirada da braçada na cadeira, contraste. Apaga.

Acordou na ressaca, nova ressaca, ou talvez fosse a mesma do dia passado que nunca se foi.  O olhar embaçado mira o vermelho, o pé de alguém no meio do bairro, o vermelho no verde do mato, no azul do céu. Céu sem nuvens, esquadrinhado na janela. E a madeira em volta tudo escuro, vermelho só na porta. Muita força de vontade pra se arrastar fora do sofá, questionar a mulher de novo. Ela não diz nada, só encara. Nem dá o gosto de olhar na cara, só encara. Encara o céu, órbitas aguadas, a pele quase borrada pelas lágrimas do esforço. Ela chorava? Não valia a energia descobrir, foi pedir água emprestada pro vizinho, que foi inútil dada a notícia: os riachos daquele e do outro lado dessa e da cidade de trás tinham os dois secado. Não raro, não nessa época do ano, mas ainda incômodo. Água agora só de garrafa. Mas pra que água quando se há cerveja?

A moça não passou batida, vizinho logo protestou. “Ah. Uma pimenta, uma parenta. Alguém aí.” Ouviu de novo: ”Deu de catar mulher na rua agora, depravado? Para de encher a cara e arranja um emprego vagabundo.” Voltou para afronta-la, ele e moça só sabe que veio de debaixo da árvore. Entra, sai. Cerveja em mãos é bem um equipamento. Toma uma e olha bem ela, ela não olha de volta. Lábios contraídos. E nem tinha esperança que ela olhasse – mesmo que fosse na cara dela e bloqueasse a vista, ela não perturbava, inclinava um pouco o pescoço, arrastava um pouco a cadeira, cabelos lisos e longos sacudindo de um lado pro outro – mas o mirar fixo, e para assim sê-lo o que for preciso. “Ei. Você. Ei, mulher.” Cutuca, ela não dá bola. E ele também já não se importa, a cabeça latejando demais – era empenho demais, muito mais que estava disposto a produzir. Se cai no sofá no próprio jogo.

Acorda como que de pesadelo insultando a própria embriaguez, a soneca chupou o sono e se vê no meio da noite. Lá fora o véu negro chamado céu comido pelo brilho das estrelas, que fazem da pele vermelha daquele pé rubi. Estranho aquilo, dado o fosco da moça, tanto em beleza quanto esvaziada maneira. De caráter só a insistência em deixada, seja ali, seja na árvore, de permanências. Tenta focar em qualquer outra coisa que seja, mas entre a ameaça mal dormida do agouro noturno e calorão de meia noite, estava acordado, por bem ou mal querer, e aquele vermelho berrante, embaçando os contornos, aquela mancha bem centrada no vão da porta permanentemente escancarada, magnetizava o olhar. De cara quer cerveja, mas cerveja já não tem – a última garrafa fedia no pé do sofá, uma mancha pegajosa de álcool derrubado no chão. Levanta, confirma a falta da cerveja, senta, indeciso, repara numa luminosidade anormal e penetra pela janela e levanta, vai para a varanda.

A mulher sentada, joelho contra joelho, uma perna esticada para o lado invadindo a portaria, mas sem tensão que buscasse a malícia de um tropeço. Pescoço um tantinho para trás, deixando a cara encarar o céu. Imóvel como se as farpas mesmo da cadeira a fincassem no lugar. Vai à cara dela de novo, ela não esboça reação. “Cansada? Agora você me olha na cara? Me olha na cara e não fala nada.” Agarra o rosto dela e tira a mão, atarantado, é como segurar o nada. O vermelho tão quente é quente nada, é o mesmo calorão do ar da noite, pairando em toda sua pressão. A boca um pouco entreaberta; avança para beijar, mas também retrai a cara, a boca dela é um mar de seca.

Atarantado e com uma raiva mansa, espreita os olhos e mira os dela com mais decisão, só para ver as nuvens, as nuvens melancólicas discorrendo rápidas até, num céu tão azul, tão azul. Não é o escuro da noite, e era de lá, afim, que emanava aquela luz pálida de névoa. Sua face já não amargava como antes, agora só calma, a pele rubra desfeita da compressão que o sol forte comprimia. O astro lá dentro não se mostrava, porém lhe entregavam os contornos flamejantes das nuvens passageiras; preguiças. Sonhou.

Despertou para uma cusparada do vizinho, que vinha de mau grado lhe avisar, os homens estavam indo buscar água mais longe. “Se tiver água vamos querer trazer pra cá, e se for pra trazer precisa de gente pra trabalhar a carga d’água, nem que seja um vagabundo como você, um bom pra nada.” Tropeçou nos pensamentos e foi com eles, e voltaram ao meio dia, sol a pico, sem nada, sem água onde a estrada alcançava. Sem dinheiro pra cerveja. Mãos rachadas pelo quente da tarde, jogou-se ao sofá, mas não suportou o couro batido melando na pele, então saiu e desabou do lado da moça. Tentou fazer dela qualquer utilidade, mas o vermelho violentava seu olhar, e já não se importava, ela era não mais que um pedaço da casa. Uma horrenda decoração. Encarou o céu desanuviado.

Aquele vermelho despejava ao lado e invadia seu olhar, seu viver, via raiva. Acordou de súbito, exasperado, pontinhos brancos debochando no céu. Garganta árida. Levantou nas pernas e logo amoleceu, espantou a idéia de entrar e birrou com a moça. Procurou seus olhos, só achou o céu, rendeu corpo ao chão. Puxou forte a mão dela da cadeira, não conseguiu derrubar. “Mais forte do que parece, hein, beleza.” Montou nela irritado e afundou a cara em seus lábios, só para mergulhar no salgado, seus beiços grudados, ficou com raiva e tentou descarregar, mas era como estar no nada, e isso frustrava, frustrava tanto, não valia o esforço, não valia nada. Caiu ao chão, derrotado. Por ela, por si; pelo céu. O sussurro das estrelas debochava. Era uma troça. Perfuravam suas retinas felizardas na malícia, esfregava os olhos e amaldiçoava, amaldiçoaria, as sombras das luzes perseguindo adentro das pálpebras. Via-se drenado.  Contenda, acima e abaixo contenda.

Então dormido, acordado na noite seguinte, a via de baixo pra cima, as grandes pernas, a pequena cabeça. Um braço jogado fora da cadeira, quase tocava sua própria cabeça. Aquela luz de dia na sua cara, e do outro lado as estrelas cheias de si já o tinham derrotado. Noite a outra apreciava o céu jocoso, noite a outra pensava enquanto dormia, e acordar era alívio. Ora orgânico, ora abrupto, se ajeita nos quadris e prostra mais a frente, encara a moça que enfrentava o céu. “Quem é você? É nada.” Ajoelha e inclina, perscrutando seus olhos novamente, viu as nuvens ora mais negras se carregarem com porte, deslizando ponta à outra daqueles confins faciais, esparramando e entrando na visão, despedaçando e reintegrando; aquele céu ali, aquele céu acima, estava encurralado, e sorria.

Não quisesse arriscar a ansiedade, pregou também os olhos naquilo que quer que ela visse tão irrefutavelmente conspícuo. Como cientes do humor regulado, por vez estrelas não lhe ferem, desfizeram o brilho que cegava, substituíram o negro-azul da imensidão, refletido no mato e nos telhados e no morro. Olharam.

O céu infeccioso.

               

De outra cidade de nada, outra descaracterizada, veio outro homem de nada, vestido a descarater, veio num carro acompanhado, de outro lugar quieto e revocável, insignificante pronunciado. Veio ao vizinho, berrou “Quer água!” Quero sim, veio resposta, se fez o mal entendido. Vinha de longe, de além da rua e da estrada, de onde não houvesse nada que valesse conto ou causa, história ou emoção. Não tinha água. Às vezes secava, era assim nessa época do ano. Em outra cidade marginalizada de si própria de seus habitantes, os poços secos chiavam e o povo trilhava cede. “Seu palerma, me vem aqui na promessa de água e tem nada! Premissa falsa! Dá o fora daqui seu traquinas descontente!”. E se recolhe para sua propriedade feito atormentado, xingando sob a falta de fôlego.

Pouco notável rapaz se dirige à próxima casa, dando de encontro a uma juventude pasmada. Vai à frente, sobe o degrau e declara sua necessidade por água, só para que diametrais os corpos se desconjuntem desabalados por seu pleito, rodando o torso fora da sombra monumental execrada por um homem ereto. Roda o pescoço e dá de cara com o sol, com um céu sem sol a ele todo entregue. Os olhos ardem e desvia de volta. Dá com a mulher fixa a cadeira e o homem derrapado a seu lado, cada qual com suas pequenas medidas a garantir o deslumbre continuado do tapete celeste, a ele tão abominável quanto a pimenta daquela pele. Murmúrio privado e os pés encaminham ao carro, a face e o torso ainda estranhados, passo em falso, passo de volta, agacha e olha, encara. Os olhos da moça, tão carregados, embaciados numa lenta e transigente espessura, aqui e ali vislumbres celestes, breves talhos do volume cinzento que tão espaçoso corria aquelas órbitas.     

Bateu um vento e subiu o cabelo da moça, deu um susto. Foi-se um pouco e lançou olhar – e o homem por curiosidade? De ali, límpido, desnublado. Assim diria, assim vivia. Correu, que o chamassem do carro e já se foram, ainda passível de quilômetros e penúrias sua empreitada por água. De garganta rachada e olhar ardido.