TEX// escuro

Escuro Entristecido (Finlândia; Terra do Fin(m))

2012

Quando chega o inverno na Finlândia, os dias ficam escuros. Às nove da noite ainda tem sol lá fora, e aí vem o inverno. Minha prima, morando lá, diz que o inverno traz consigo uma temporada de suicídios. Não sei se ela disse o inverno. É julho, e ficará escuro. Não sei quando. Quanto. E quando fica escuro, aumentam os suicídios e isso é um problema para a Finlândia, e para os outros países do norte europeu.

Mas na Finlândia em especial. Porque já havia ouvido falar dos suicidas finlandeses e então minha prima mencionou o assunto, então na Finlândia isso é um problema. Nunca fui para a Europa. Queria ver esse escuro. Lembro-me de James Whistler, que não era finlandês mas sabia do escuro. Eu também sei do escuro, então queria ver esse escuro da Finlândia como é, quero ver, e também quero ver a neve, quero estar no frio.

Mas não acredito que os finlandeses se suicidem por causa do escuro, que a noite estendida lhes traga melancolia, infelicidade ou o que seja. Não acho que vejam o escuro como negativo, a menos que do tipo fotográfico. Pessoas se suicidam no mundo todo, por todos os motivos. Por serem pessoas.

Acho estranho partilhar esse peso para com o clima. O escuro está por toda parte, em todo lugar, sob toda a forma. Como será a escuridão da Finlândia? Competirá com a de qualquer outra noite?

Sinto o ar claro. Claro e leve, e assim vejo a escuridão finlandesa, e a escuridão brasileira, e o clima onde quer que esteja.

Nunca senti frio. Frio de rachar. Nunca me senti como uma pedra de gelo e nunca me vi obrigada a vestir mais do que um casaco de lã e uma camiseta. Tampouco tive de usar duas calças, ou meia-calça por baixo da calça. As meias longas foram sempre de brincadeira. Como será a escuridão finlandesa?

As pessoas que moram lá também ficam tristes ou estressadas, têm os mesmos problemas no inverno e no verão. Tristes, felizes, ou tristes chove, venta, amanhece, o sol vai à pico, neva e fica escuro. O clima está lá fora e a nós nada deve. O sol se espreguiça e aconchega, lança um raio pela nossa face e a toca docemente, relaxando os músculos e convidando um sorriso. No escuro os finlandeses precisam sorrir sem o sol. Não. Quero estar no frio. Os suicidas não se matam por causa do clima. Já haviam se levado a isso.

Apenas deixamos o clima entrar. Fecho os olhos para sentir o frio e para ver também a escuridão dos finlandeses. O que deve ser, ver sua emoção resguardada ou secreta, refletida na tão translúcida escuridão, que traz certeza. Os suicidas conhecem melhor a escuridão. Acompanham-na quietos e sabem prestar atenção. Não saibam talvez, olhar de volta, falar de volta, mas também talvez escolham por não. Sabem a medida do frio, são especialistas em exatidão.

Muitos suicidas não se matam. Na Finlândia, no Brasil e em todos os lugares, há os suicidas que não se mataram e não quiseram morrer. Ou ainda os que morreram sem morrer. Morno. O sol que brilha apaga e afaga. Rola sobre a pele, mas é opaco. Brilha tão branco e intenso que recusa deixar-nos a visão em paz. Pode mesmo o escuro das noites na Finlândia ser mais escuro que o de qualquer outra noite?