TRAD// Contra Linguagem Ordinária

Contra Linguagem Ordinária:
a Linguagem do Corpo

Kathy Acker, 1992

Prefácio Diário

Tenho malhado agora há dez anos, seriamente por quase cinco anos.

Durante os últimos anos, eu venho tentando escrever sobre musculação.

Tendo fracassado vez e vez novamente, ao ser oferecida a oportunidade de escrever este ensaio, fiz o seguinte plano: eu iria à academia como usual. Imediatamente após cada treino, eu iria descrever tudo que  havia acabado de ter experenciado, pensado e feito. Tais descrições diárias providenciariam o material cru.

Após cada treino, eu esquecia: de escrever. Repetidamente. Eu… alguma parte de mim… a parte do “eu” que malha… estava rejeitando linguagem, qualquer descrição verbal do processo de musculação.

Eu devo começar descrevendo, escrevendo sobre musculação da única maneira que posso: começarei analisando esta rejeição da linguagem ordinária ou linguagem verbal. Qual é a imagem do antagonismo entre musculação e linguagem verbal?

Uma Linguagem Que é Sem Palavras

Imagine que você está em um país estrangeiro. Já que você vai estar neste lugar por algum tempo, você está tentando aprender a língua. No ponto de começar a aprender a nova linguagem, logo antes de ter começado a entender alguma coisa, você começa a esquecer sua própria. Do estranhamento, você se se encontra sem uma língua.

É aqui, nesta geografia de nenhuma linguagem, este espaço negativo, que posso começar a descrever a musculação. Pois eu estou descrevendo aquilo que rejeita linguagem.

Elias Canetti, que cresceu em uma multidão de línguas faladas, iniciou sua autobiografia recontando uma memória. Nela, sua recordação mais antiga, a perda de linguagem é ameaçada: “Minha memória primeira é mergulhada em verme-lho. Eu saio de uma porta no braço de uma empregada, a porta na minha frente é vermelha, e à esquerda uma escadaria desce, igualmente vermelha…” Um homem sorridente anda até a criança; a criança, a pedido, coloca a língua para fora no que o homem gira aberto um canivete e segura a lâmina afiada contra a língua vermelha.

“…Ele diz: ‘Agora nós vamos cortar fora a língua dele.’”

No último momento, o homem puxa a faca de volta.

De acordo com a memória, essa sequência acontece todo dia.

“É assim que o dia começa,” Canetti adiciona, “e acontece com muita frequência.”’

Estou na academia a cada três de quatro dias. O que acontece lá? Com o que a linguagem naquele lugar se parece?

De acordo com o clichê, atletas são estúpidos. Significando: eles são inarticulados. A linguagem falada de fisicultu-ristas faz deste clichê real. A linguagem verbal na academia é mínima e quase sem sentido, reduzida a números e alguns poucos substantivos. “Séries”, “agachamentos”, “repetições”… Os únicos verbos são “fazer” ou “fracassar” adjetivos e ad-vérbios não mais existem; sentenças, se tanto, são simples.

Esta língua falada é semelhante aos “jogos de linguagem” que Wittgenstein propõe em seu The Brown Book.

Em uma academia, linguagem verbal ou linguagem cujo propósito é significado ocorre, se tanto, apenas no limiar de sua perdição.

Mas quando estou na academia, minha experiência é que estou imersa em um mundo rico e complexo.

O que de fato acontece quando malho?

O cruzamento do limite do mundo definido por linguagem verbal à academia em que o mundo exterior não é permitido (e todas as suas linguagens) (nesse sentido, a academia é sagrada) leva vários minutos. O que acontece durante esses minutos é que eu esqueço. Massas de pensamento rodopiante, verbalizado na medida em que estou consciente deles, desaparecem conforme mente ou pensamento começa a se focar.

A fim de analisar esta tomada de foco, eu devo primeiro descrever a musculação em termos de intencionalidade.

Fisiculturismo é um processo, talvez um esporte, pelo qual uma pessoa forma o próprio corpo. Este formar é sempre relacionado ao crescimento de massa muscular.

Durante treinamento em circuito e aeróbico, o coração e pulmões são exercitados. Mas músculos crescerão apenas se eles forem, não exercitados ou movidos, mas de fato quebrados. A lei geral por trás do fisiculturismo é que músculo, se quebrado de uma maneira controlada e então provido com os fatores apropriados de crescimento como nutrientes e descanso, crescerá de volta maior do que antes.

A fim de quebrar áreas específicas de músculo, quaisquer áreas que se queira alargar, é necessário trabalhar essas áreas em isolamento até o fracasso.

A musculação pode ser vista como sendo sobre nada além de fracasso. Um fisiculturista está sempre trabalhando em torno do fracasso. Ou eu trabalho uma massa muscular isolada, por exemplo uma das cabeças do tríceps, até o fracasso. A fim de fazer isto, eu excerto o grupo muscular até quase o ponto em que ele não pode mais se mover.

Mas se eu trabalho o mesmo grupo muscular ao ponto que ele não pode mais mover, eu devo movê-lo através do fracasso. Eu então estou fazendo o que são chamadas “repetições negativas”, trabalhando o grupo muscular além de seu poder de mover-se. Aqui está o segundo método de trabalhar com o fracasso.

Qualquer caminho que escolha, eu sempre quero trabalhar meu músculo, grupo muscular, até que ele não possa mais mover: eu quero fracassar. Assim que possa cumprir determinada tarefa, tanto peso por tantas repetições durante um certo período de tempo, eu devo sempre incrementar um aspecto desta equação, repetições de peso ou intensidade, para que possa novamente chegar ao fracasso.

Eu quero quebrar músculo para que ele possa crescer de volta maior, mas não quero destruir músculo de modo que crescimento seja prevenido. A fim de evitar ferimentos, primeiro aqueço o grupo muscular, então cuidadosamente o trago ao fracasso. Eu faço isso trabalhando o grupo muscular através de um número calculado de séries durante um período calculado de tempo. Se tentasse imediatamente trazer um grupo muscular ao fracasso levantando o maior peso que pudesse aguentar, eu poderia me machucar.

Quero chocar meu corpo ao crescimento; não quero machucá-lo.

Portanto, na musculação, fracasso está sempre conectado à contagem. Eu calculo qual peso usar; eu então conto quantas vezes levanto aquele peso e os segundos entre cada levantamento. Assim é que controlo a intensidade do meu treino.

Intensidade vezes movimento do peso máximo igual a destruição muscular (crescimento muscular).

É a equação entre destruição e crescimento também uma fórmula para arte?

Fisiculturismo é sobre fracasso porque musculação, crescimento corporal e formação, ocorrem na face do material, do movimento inexorável do corpo em direção à seu fracasso final, em direção à morte.

Para quebrar um grupo muscular, eu quero fazer aquele grupo trabalhar até, ou mesmo além, da capacidade. Para fazer isso, ajuda e é até necessário visualizar a parte do corpo que está envolvida. Mente ou pensamento, então, enquanto malhando, está sempre focado no número ou contagem e frequentemente em visualizações precisas.

Já foi dito por certos fisiculturistas que musculação é uma forma de meditação.

O que é que eu faço quando eu malho? Eu visualizo e eu conto.

Eu estimo peso; eu conto séries; eu conto repetições; eu conto segundos entre repetições; eu conto tempo, segundos ou minutos, entre séries: Desde o começo até o fim de cada treino, a fim de manter intensidade, eu devo contar continuamente.

Por essa razão, a linguagem de um fisiculturista é reduzida a um mínimo, até mesmo a um fechado, conjunto de substantivos e à repetição numérica, a um dos mais simples jogos de linguagem.

Vamos nomear esse jogo de linguagem, a linguagem do corpo.

A Riqueza Da Linguagem Do Corpo

A fim de examinar uma linguagem tal, o jogo de linguagem que resiste à linguagem ordinária, através da lente de linguagem ordinária ou linguagem cuja tendência é a de gerar sintaxe ou fazer significados proliferarem, eu devo usar uma rota indireta.

Em outro de seus livros, Elias Canetti começa a falar sobre e a partir daquela geografia que é desprovida de linguagem verbal:

Uma maravilhosamente luminosa, vicída substância é deixada atrás em mim, desafiando palavras…

Um sonho: um homem que desaprende as linguagens do mundo até que em nenhum lugar na Terra ele entenda o que as pessoas estão dizendo.

Estar em Marrakesh é o sonho de Canetti feito factual. Há línguas aqui, ele diz, mas eu não entendo nenhuma delas. Quanto mais me aproximo em direção ao estrangeirismo, ao estranhamento, em direção a entender o estrangeirismo e o estranhamento, mais estou perdendo minha própria linguagem. A pequena perda de linguagem ocorre quando eu me aventuro para e no meu próprio corpo. É meu corpo uma terra estrangeira para mim? O que é essa imagem de “meu corpo” e “eu”? Por anos, disse no começo deste ensaio, quis descrever a musculação; toda vez que tentei fazê-lo, a linguagem ordinária fugiu de mim.

“Homem,” Heidegger diz, “é, o estranhíssimo.” Porque! Por que em todo lugar ele ou ela pertence ao ser ou ao estranhamento ou caos, e ainda em todo lugar ele ou ela tenta cravar um caminho pelo caos:

Em todo lugar homem faz para si um caminho; ele se aventura em todos os reinos da essência, do sobrejugante poder, e ao fazê-lo ele é atirado fora de todos os caminhos.

O físico ou material, aquilo que está, está constantemente e imprevisivelmente mudando: é caótico. Esse caos se enreda em torno da morte. Pois é sua morte que rejeita todos os nossos caminhos, todos os nossos significados.

A qualquer momento que alguém malha, ele ou ela está sempre tentando entender e controlar o físico na face desta morte. Não é de se surpreender que musculação seja centrada em torno do fracasso.

A antítese entre significado e essência tem sido notada com frequência. Wittgenstein ao final do Tractatus:

O sentido do mundo deve existir fora do mundo. No mundo tudo é como é, e tudo acontece conforme acontece – nele nenhum valor existe, e se existisse, não teria valor. Pois tudo que acontece e é o caso é acidental.

Se linguagem ordinária ou significados existem fora da essência, qual é a posição daquele jogo de linguagem que nomeei a linguagem do corpo? Pois musculação (uma linguagem do corpo) rejeita a linguagem ordinária e ainda em si mesma constitui uma linguagem, um método para entender e controlar o físico que neste caso é também o si mesmo.

Eu posso agora falar diretamente sobre musculação. (Como se fala alguma fosse direta.)

O jogo de linguagem chamado a linguagem do corpo não é arbitrário. Quando um fisiculturista está contando, ele ou ela está contando sua própria respiração.

Canetti fala dos mendigos de Marrakesh que possuem um jogo de linguagem similar e até mais simples: eles repetem o nome de Deus.

Na linguagem ordinária, significado é contextual. Enquanto que o lamento do mendigo não significa nada além do que é; no lamento do mendigo, o impossível (como o Wittgenstein do Tractatus e Heidegger o veem) ocorre no que significado e fôlego se tornam um.

Aqui está a linguagem do corpo; aqui, talvez, está a razão porque fisiculturistas experenciam musculação como uma forma de meditação.

“Entendi que a sedução lá está em uma vida que reduz tudo ao tipo mais simples de repetição,” Canetti afirma. Uma vida em que significado e essência não mais se opõe um ao outro. Uma vida de meditação.

“Entendi o que aqueles mendigos cegos realmente são: os santos da repetição…”.

A Repetição Do Um: O Vislumbre No Caos Ou Essência

Eu estou na academia. Estou começando a treinar. Ou eu digo o nome “banco”, e então ando até ele, ou simplesmente ando até ele. Então, eu talvez imagine o número de meu primeiro peso; provavelmente, já que costumo começar com o mesmo peso de aquecimento, apenas coloco os pesos apropriados na barra. Levantando esta barra de seus descansos, e então descendo até meu peitoral inferior, eu conto “1”. Eu estou visualizando esta barra, me assegurando de que toca meu peito no lugar certo, colocando-a de volta em seus descansos. “2”. Eu repito os mesmos exatos movimentos. “3”… Depois de doze repetições, eu conto trinta segundos enquanto incremento meus pesos. “1”. O processo idêntico começa novamente só que dessa vez eu termino em “10”… Todas essas repetições acabam apenas quando termino meu treino.

Sobre contar: Cada número iguala uma inalação e uma exalação. Se paro minha contagem ou de qualquer outro modo perco foco, eu risco deixar cair ou de outro modo manipular mal um peso e assim danificar meu corpo.

Nesse mundo da contínua repetição de um número mínimo de elementos, nesse labirinto aural, é fácil um perder seu caminho. Quando tudo é repetição no lugar da produção de significado, todo caminho se parece com todos os outros caminhos.

Todo dia, na academia, eu repito os mesmos gestos controlados com os mesmos pesos, as mesmas repetições… Os mesmos padrões de respiração. Mas de vez em quando, vagando nos labirintos de meu corpo, eu encontro alguma coisa. Algo que posso conhecer porque conhecimento depende de diferença. Um evento inesperado. Pois apesar de eu estar apenas repetindo certos gestos durante certos períodos de tempo, meu corpo, sendo material, nunca é o mesmo; meu corpo é controlado por acaso e por mudança.

Por exemplo, ontem, trabalhei peitorais. Usualmente eu supino facilmente a barra mais sessenta libras por seis repetições. Ontem, inesperadamente, mal consegui levantar esse peso na sexta repetição. Procurei por uma razão. Sono? Dieta? Ambos estavam usuais. Estresse emocional ou de trabalho? Não mais do que o usual. O clima? Não bom o suficiente. Meu fracasso inesperado na sexta repetição estava me permitindo ver, como se por uma janela, não para qualquer exterior, mas dentro de meu próprio corpo, para seus mecanismos.  Estava sendo permitida a vislumbrar as leis que controlam meu corpo, aquelas do acaso ou mudança, leis que são mal, se tanto, conhecíveis.

Ao tentar controlar, formar, meu corpo através das ferramentas calculadas e métodos do fisiculturismo, e vez e novamente, ao seguir esses métodos, fracassar em fazê-lo, sou capaz de conhecer aquilo que não pode ser finalmente controlado e conhecido: o corpo.

Nesse encontro está a fascinação, senão o propósito, da musculação. Vir face a face com o caos, com meu próprio fracasso ou uma forma de morte.

Canetti descreve a arquitetura de uma casa típica no labirinto geográfico de Marrakesh. O interior das casas são frios, escuros. Poucas, se alguma, janelas dão para a rua. Pois toda a construção dessa casa, janelas, etc., é direcionada para dentro, para o pátio central onde apenas abertura ao sol existe.

Tal arquitetura é um espelho do corpo: Quando eu reduzo linguagem verbal a significado mínimo, a repetição, eu fecho as janelas exteriores do corpo. Significado aproxima respiração conforme eu malho, conforme começo a me mover pelos labirintos do corpo, para encontrar, se apenas por um segundo, aquilo que minha consciência ordinariamente não pode ver. Heidegger: “O estar-ali do homem histórico significa: estar posicionado como a fenda em que o preponderante poder de ser irrompe em seu aparecimento, a fim que esta fenda mesma deva estilhaçar contra o ser.”

Em nossa cultura, nós simultaneamente fetichizamos e desdenhamos o atleta, um trabalhador no corpo. Pois nós ainda vivemos sob o signo de Descartes. Este signo também é o signo do patriarcado. Enquanto continuarmos a considerar o corpo, aquilo que está sujeito ao acaso, mudança, e morte, como nojento e hostil, conquanto continuaremos a considerar nossos próprios seres como perigosos outros.