para (…)

2015

Série de monotipias sobre papel chinês, aproximadamente 80×80 cm cada. 
Memórias de pedras e águas.

Escuro Entristecido (Finlândia; Terra do Fin(m))

2012

Quando chega o inverno na Finlândia, os dias ficam escuros. Às nove da noite ainda tem sol lá fora, e aí vem o inverno. Minha prima, morando lá, diz que o inverno traz consigo uma temporada de suicídios. Não sei se ela disse o inverno. É julho, e ficará escuro. Não sei quando. Quanto. E quando fica escuro, aumentam os suicídios e isso é um problema para a Finlândia, e para os outros países do norte europeu.

Mas na Finlândia em especial. Porque já havia ouvido falar dos suicidas finlandeses e então minha prima mencionou o assunto, então na Finlândia isso é um problema. Nunca fui para a Europa. Queria ver esse escuro. Lembro-me de James Whistler, que não era finlandês mas sabia do escuro. Eu também sei do escuro, então queria ver esse escuro da Finlândia como é, quero ver, e também quero ver a neve, quero estar no frio.

Mas não acredito que os finlandeses se suicidem por causa do escuro, que a noite estendida lhes traga melancolia, infelicidade ou o que seja. Não acho que vejam o escuro como negativo, a menos que do tipo fotográfico. Pessoas se suicidam no mundo todo, por todos os motivos. Por serem pessoas.

Acho estranho partilhar esse peso para com o clima. O escuro está por toda parte, em todo lugar, sob toda a forma. Como será a escuridão da Finlândia? Competirá com a de qualquer outra noite?

Sinto o ar claro. Claro e leve, e assim vejo a escuridão finlandesa, e a escuridão brasileira, e o clima onde quer que esteja.

Nunca senti frio. Frio de rachar. Nunca me senti como uma pedra de gelo e nunca me vi obrigada a vestir mais do que um casaco de lã e uma camiseta. Tampouco tive de usar duas calças, ou meia-calça por baixo da calça. As meias longas foram sempre de brincadeira. Como será a escuridão finlandesa?

As pessoas que moram lá também ficam tristes ou estressadas, têm os mesmos problemas no inverno e no verão. Tristes, felizes, ou tristes chove, venta, amanhece, o sol vai à pico, neva e fica escuro. O clima está lá fora e a nós nada deve. O sol se espreguiça e aconchega, lança um raio pela nossa face e a toca docemente, relaxando os músculos e convidando um sorriso. No escuro os finlandeses precisam sorrir sem o sol. Não. Quero estar no frio. Os suicidas não se matam por causa do clima. Já haviam se levado a isso.

Apenas deixamos o clima entrar. Fecho os olhos para sentir o frio e para ver também a escuridão dos finlandeses. O que deve ser, ver sua emoção resguardada ou secreta, refletida na tão translúcida escuridão, que traz certeza. Os suicidas conhecem melhor a escuridão. Acompanham-na quietos e sabem prestar atenção. Não saibam talvez, olhar de volta, falar de volta, mas também talvez escolham por não. Sabem a medida do frio, são especialistas em exatidão.

Muitos suicidas não se matam. Na Finlândia, no Brasil e em todos os lugares, há os suicidas que não se mataram e não quiseram morrer. Ou ainda os que morreram sem morrer. Morno. O sol que brilha apaga e afaga. Rola sobre a pele, mas é opaco. Brilha tão branco e intenso que recusa deixar-nos a visão em paz. Pode mesmo o escuro das noites na Finlândia ser mais escuro que o de qualquer outra noite?

De como o personagem utilizou de seus métodos e astúcia para salvar aos lamentantes.

2008

Pegaram um trem sem nome que não para em estação alguma. É que o pai tinha lá que resolver uns assuntos com a argentina que era mãe de uns filhos que não eram irmãos daquele que trazia consigo.

O rapaz tinha lá seus quarenta e nove anos, acompanhando o pai por motivo de herança. Deram eles numa cidadela sertaneja  – mas, não se engane, o lugarejo tinha suas massas cinzentas; tanto das cheias de janelas quanto daquelas que bloqueiam o sol.

Com o pai já sumido pelos becos e ruelas, sobrou ele só, num cruzamento de nada com coisa nenhuma. À sua frente, apenas uns frangos assados abandonados por cães baldios e uma cruz surgindo detrás de uma construção particularmente destruída.

Decidiu ir naquela direção, penetrando a secura daquela localidade sépia, esquecida pelo tempo e pelo vento. A tal cruz se assentava no topo da Paróquia de oferendas à Nossa Senhora das Lamentações, uma igreja cor de vinho construída num palanque na beira de um lago, por cima de onde tinha uma ponte.

Rastejando por cada milímetro da extensão da ponte e do fundo do lago, que há décadas não caía uma gota d’água naquele buraco terroso, tinham lá os lamentantes, patéticos seres que pareciam ter emergido dos panos de prato sujo duma mansão qualquer. Prostrados ao lado de folhas amarelas de jornal, muitas das quais falsas, lamentavam os inúmeros noticiados: aparições, fantasmas alojados na igreja, possessões, exorcismos mal sucedidos, assombrações, maldições, estátuas que sangravam dos olhos, ilusões financeiras, desilusões amorosas e toda sorte de rumores sobre aquele lugar maldito.

Os lamentos, assim tão juntos e fortes, faziam retorcer os galhos desfolhados e espantavam as almas dos covos. Era uma verdadeira sinfonia certa a deprimir o mais gozante dos tolos e ferir profundamente aos mais puros de desesperanças. Dizia-se pela sujeira da cidade que os lamentadores eram exatamente causa de tudo aquilo que provocava suas lamentações, sendo que seu conto de morte enlouquecia a eles próprios, que procediam a se matarem a eles mesmos – incidente tão comum que a paróquia instalou uma forca pública em seus portais, com a engravação: “Se é pra morrerem, que se morram nas mãos de Deus!”. Aliás, a Paróquia e redondezas era o lugar mais vívido em uns bons quilômetros, centro de atenção dos turistas que buscavam experiências sobrenaturais, paranormais.

Vendo essa situação macabra, nosso querido cabra homi de um personagem teve um pensamento claro e único, se bem que dos mais estúpidos: “Estou aqui para salvar esses seres encapuzados, mensageiros da desgraça, os lamentadores a que chamam lamentantes! Essa cidadela empoeirada não mais vai ser vítima desses demoníacos gárgulas de sanguessugas!”. Ou seja, como o mais óbvio dos homens há de apontar, ele não era dos mais iluminados. Mas, sigamos com sua estória – que estória não existe mais.

Sua primeira ação em nome de seu objetivo foi deslanchar em pertinente corrida pela ponte, surrupiar uma saca de uma pilha de lixo e notar o brilho despolido das esmolas espalhadas por ali, antes de alcançar a mencionada forca, cabeça já coberta, e aguardar ali, na ameaça de morte.

Ao entardecer, não menos apaixonados os lamentos perturbantes, surgiu uma freira dos meandros da igreja, tão magra e pálida que, caso ao invés de carregar estivesse usando os panos santos, poderia ser confundida, e bem facilmente, com um dos lamentantes – e dos mais penosos.

“Que faz aí, na beira do abismo?” foram as palavras ocas que vieram emitidas de sua boca. “Cansei de lamentar. Quero ser o lamentado, que me mato e me morro pra voltar à guisa de assombração, mais praga vou rogar nesse lugar!”, foi a resposta que ecoou pelo concreto frio das paredes. “Mentira, que você pode até cobiçar a asfixia, mas não é nenhuma droga de lamentante! Agora desce daí ou vou te arranjar uma palmatória!”.

Após um chazinho de erva daninha numa banque de orações, a freira chefe, ou qualquer a alta posição que ocupasse, a que todos chamavam Mãe, explicou ter nome Mae, e disse também que todo lamentador usa sapatos, que não ousam pisar terreno que não seja puramente humano: a igreja sagrada demais. Assim soubera da espécie de seu convidado, a quem forneceu apenas suspiro ao receber as intenções. Que os lamentantes são como peste bicho parasita, dedicados em exclusividade a maldizer a cidade às ruínas.

“A mim, não me importa, pois que eu ei de salvá-los!”. Pronunciou sua proclamação, ponto final na conversação. Alojou-se ele na torre do sino das lamentações, que vibrava seu som gutural sempre que um lamentador optava pelo fim de sua vida. E ficou ali, até que um serviço se comprovou necessário de sua ajuda. Ouviu o falar dos crentes sobre um acidente que estragou a única estrada que dava na cidade.

É que uma frota de caminhões rumo sul tombou, todos os quatro caminhões e meio, esparramando todo o carregamento de alpiste por tudo em volta, deixando a problemática do que fazer com toda aquela ração de animais menores, tendo o motorista e seus frotistas já concertado seus carros e ido buscar nova carga sementosa.

Chegando no local, o coitado nomeado apenas “personagem” teve epifania daquelas que só os mentecaptos experimentam, resoluto em sua idéia do que fazer quanto à quantidade de alpiste forrando a estrada. Aproximou do encarregado da limpeza da bagunça, um macho grande e, em fraqueza do que ele mesmo admite, burro. Não tendo na cidade balde, vassoura ou disposição bastantes para realizar o trabalho de recolhimento e redistribuição da alpizarada, o único resultado que sua diminuta mente conseguira ruminar era esperar que a fauna aviária local deleitar-se longamente num banquete que duraria meses.

A solução proposta por aquele que acompanhamos, porém, soou muito melhor que esperar pela boa-vontade da passarada. E fizeram assim, conforme a mente perturbada: ofereceram uns trocados e uns miolos de pão aos lamentantes, em troca de sua força de trabalho. Não pense, no entanto, que os lamentos cessaram, que trabalho não corresponde salvamento. Foi em constante lamurio que os lamentantes recolheram, com suas próprias mãos, mãozada por mãozada, toda a alpizarada. E foi a pé que levaram sua bagagem ao riacho próximo, magérrimo córrego duma palma de profundeza, mas as águas mais brabas que não se imaginaria estarem em porte tão pequeno. Toda a espessura de alpiste foi lavada de imediato para fora da visão de qualquer um. Estava aí a resolução. E mal foi condecorado herói, nosso personagem retornou ao puleiro de corujas que vinha chamando de morada.

Mas é que não acaba aí. No dia seguinte chegou notícia da cidade maior, contendo informações relevantes à repentina falta de água na desértica região. Acontecia que a represa estava entupida pela misteriosa aparição de uma alpizarada. Dado o alarde, Mae denunciou, e não demorou a que o responsável fosse posto a caminho da represa, para que concertasse o que tinha quebrado. Acesso, endesertado como estava o local, foi fácil. Análise dos dnos rápida. Concertamento retardado no sentido de problemas mentais da palavra.

Estava assim a situação quando nossa figura chegou: nos dutos do paredão de concreto, só alpiste se via. Oras, bastava fazer a água fluir novamente, e que as sementes permanecessem em seu novo cômodo!; ditou ele, saindo a buscar os materiais preciosos a seu sucesso. Bastou o encontro com uma velha mina antigamente abandonada. Lá achou uma picareta, e bastou uma picaretada prudente numa rachadura fendada para fazer desmoronar o volume d’água d’outro lado e as pedras concretosas em cima do infeliz imbecil, que, consertada sua bagunça, morreu de sua própria estupidez.

Uns dias que talvez formaram semanas depois, o lugarejo que alojava a Paróquia das Lamentações, com todos os seus lamentantes, sofreu de particular miséria, toda sorte de desaventuras se deixando ocorrer. A vasculhar o sino, uma noite, Mae descobriu a fonte de tamanho azar: a assombração de nosso personagem, que voltara como fantasma, e com gosto amargo de vingança e brilho breu de negrume.

Estando insuportáveis, e mais fortes que sempre os lamentos dos lamentantes, os moradores do lugarejo imploraram ao murcho espírito do personagem que deixasse o local, a que receberam a seguinte resposta: “Façam-me imperador – não, melhor, governador, assim não tenho que sair imperando por aí – das banana. Deixem o glorioso pseudofruto invadir tuas terras!”

Mas toda bananeira plantada recusou-se a aflorar. O mesmo repetiu-se quando o mandato mudou para melancias, abóboras, maçãs e jiló. No meio tempo dos fracassos, aproveitou-se o governador para coletar os lamentos dos lamentantes. E, finalmente, ao se cansar dos esforços infrutíferos dos cidadãos, usou de toda sua manha, estupidez, e lamurioso poder lamentoso para fazer de suas fantasmagorices, transformando todo o solo infértil da da cidadela num infinito e batatudo tubérculo.

E é dessa maneira que ele salvou os lamentantes. Foi requerido tamanho poder para a realização da façanha, que além de desaparecer num puffi, o personagem sugou todo o lamento disponível nos lamentantes, que todos, reparando em sua nova condição, se tornaram fazendeiros e negociantes de massa de batata.

A lagoa encheu depois de seu longo hiato, o pai nunca mais foi avistado, e a Paróquia, sua fundação abalada pelo tuberculoso solo, foi desconstruída e reerguida na forma da Paróquia de oferendas à Nossa Senhora do socorro aos tuberculosos, para onde peregrinam os afligidos pela doença. Assim cessa nossa estória.

Haja Fôlego

2012

Haja fôlego, para respirar
que todos os fôlegos não me bastam neste ar quente
quente ar ameaça apodrecer, agarra puxando para fora, desenrola para fora toda coisa minha, me tira o ar
A brisa sufoca antes de entrar,
o abano estica meu sono, que o vento leva
e traz de volta pelo ar
grande massa
se uma única nuvem distendesse por todo si, por toda a pele, penetrando a crosta
Se o ar quente fizesse dilatar
esvaindo seu branco pulmonar (permanente)
fazendo-nos vítimas de um sufoco, perpétuo, recobriria
a cada ponto supérfluo, a cada membrana
e superfície
distendendo seus grãos de umidade,
perdidos, irreconhecíveis!
A superfície se choca e treme, de repente areia!
que a nuvem era feita de ar quente
e essa massa toda me envolve, me prende
um campo expandido,
explodindo em distensão
puxa puxa puxa
toda a tensão! um único plano
toda ela se soma, todas ela
Desfragmenta
Todas as forças que ficam sendo todos os pontos, todos os grãos,
reverberando e girando doidos
Cada cada ar todos os fôlegos
está tão quente
(e nem é verão)

como todas as estrelas são fingidas, não devem ser creditadas.

2012

Numa cidade dessas, não se acontecem essas coisas. Numa cidade dessas, que nada acontece, que é perfeita pra essas coisas, de tanto que é esperado que não se aconteçam essas coisas. Que não se aconteça nada. E nada acontece. E numa cidade perfeita pra nada se acontecer, algo acontece. É nem cidade, prático vilarejo, no sopé de uma montanha, mais um monte que pico, gramado e pacato. Casinhas de alvenaria e madeira, arbustos fartos – ocupação geral do povoado, dependente de poços para abastecer água.

O dia que ela apareceu, os poços secaram. Os poços haviam secado antes, sempre secavam, e quando secavam as pessoas saiam nas caminhonetes para buscar galões de água na cidade vizinha. Quando ela apareceu, apareceu embaixo de uma árvore, sentada de pernas cruzadas; ninguém a conhecia e ninguém parava. Todos notavam, e bem se importavam – mas quais as chances de algo acontecer numa cidade daquelas? Algo que o valha? Nenhuma eram as chances, então bem que não tivesse acontecido e bem que ignorassem – uma cidade daquelas não estava preparada para ocorrência que fosse. Não olhassem, não ocorresse.

Um único cidadão problemático tomou interesse pela moça, agarrando-a pela mão e arrastando para sua casa. Chegando à entrada, uma varanda de toras de costas para o monte pedregoso, ela cessa as resistências e se atira a uma cadeira abaixo de uma janela alta, violenta se recusa a todos os custos a colocar pé no interior do lar; inúteis as súplicas do homem.

Senta lá e fica. A pele escarlate. O cabelo reto cinzento de quase velha. Encara o céu e não tem olhos – nas órbitas, as nuvens.

“Que coisa”, ele sente, se pensássemos o que não sabemos sentir, adentrando a casa, cara amarrada pela ressaca, “alguém espelha o céu.” As nuvens passando num fundo azul, azul, tão azul.

Cata uma cerveja e se acomoda no sofá surrado, pernas pro ar e o braço pendente. Toma uma e encara o teto, vira a cara e repara: não fechou a porta, não fechou a janela. Pensou que tinha fechado? Fechou nada. Coisa séria numa casa toda de madeira. A vista seria a vizinhança, não fosse o pé vermelho da moça estirado na soleira. Gira um pouco a cabeça pra ver também os dedos dela, roçando a beirada da braçada na cadeira, contraste. Apaga.

Acordou na ressaca, nova ressaca, ou talvez fosse a mesma do dia passado que nunca se foi.  O olhar embaçado mira o vermelho, o pé de alguém no meio do bairro, o vermelho no verde do mato, no azul do céu. Céu sem nuvens, esquadrinhado na janela. E a madeira em volta tudo escuro, vermelho só na porta. Muita força de vontade pra se arrastar fora do sofá, questionar a mulher de novo. Ela não diz nada, só encara. Nem dá o gosto de olhar na cara, só encara. Encara o céu, órbitas aguadas, a pele quase borrada pelas lágrimas do esforço. Ela chorava? Não valia a energia descobrir, foi pedir água emprestada pro vizinho, que foi inútil dada a notícia: os riachos daquele e do outro lado dessa e da cidade de trás tinham os dois secado. Não raro, não nessa época do ano, mas ainda incômodo. Água agora só de garrafa. Mas pra que água quando se há cerveja?

A moça não passou batida, vizinho logo protestou. “Ah. Uma pimenta, uma parenta. Alguém aí.” Ouviu de novo: ”Deu de catar mulher na rua agora, depravado? Para de encher a cara e arranja um emprego vagabundo.” Voltou para afronta-la, ele e moça só sabe que veio de debaixo da árvore. Entra, sai. Cerveja em mãos é bem um equipamento. Toma uma e olha bem ela, ela não olha de volta. Lábios contraídos. E nem tinha esperança que ela olhasse – mesmo que fosse na cara dela e bloqueasse a vista, ela não perturbava, inclinava um pouco o pescoço, arrastava um pouco a cadeira, cabelos lisos e longos sacudindo de um lado pro outro – mas o mirar fixo, e para assim sê-lo o que for preciso. “Ei. Você. Ei, mulher.” Cutuca, ela não dá bola. E ele também já não se importa, a cabeça latejando demais – era empenho demais, muito mais que estava disposto a produzir. Se cai no sofá no próprio jogo.

Acorda como que de pesadelo insultando a própria embriaguez, a soneca chupou o sono e se vê no meio da noite. Lá fora o véu negro chamado céu comido pelo brilho das estrelas, que fazem da pele vermelha daquele pé rubi. Estranho aquilo, dado o fosco da moça, tanto em beleza quanto esvaziada maneira. De caráter só a insistência em deixada, seja ali, seja na árvore, de permanências. Tenta focar em qualquer outra coisa que seja, mas entre a ameaça mal dormida do agouro noturno e calorão de meia noite, estava acordado, por bem ou mal querer, e aquele vermelho berrante, embaçando os contornos, aquela mancha bem centrada no vão da porta permanentemente escancarada, magnetizava o olhar. De cara quer cerveja, mas cerveja já não tem – a última garrafa fedia no pé do sofá, uma mancha pegajosa de álcool derrubado no chão. Levanta, confirma a falta da cerveja, senta, indeciso, repara numa luminosidade anormal e penetra pela janela e levanta, vai para a varanda.

A mulher sentada, joelho contra joelho, uma perna esticada para o lado invadindo a portaria, mas sem tensão que buscasse a malícia de um tropeço. Pescoço um tantinho para trás, deixando a cara encarar o céu. Imóvel como se as farpas mesmo da cadeira a fincassem no lugar. Vai à cara dela de novo, ela não esboça reação. “Cansada? Agora você me olha na cara? Me olha na cara e não fala nada.” Agarra o rosto dela e tira a mão, atarantado, é como segurar o nada. O vermelho tão quente é quente nada, é o mesmo calorão do ar da noite, pairando em toda sua pressão. A boca um pouco entreaberta; avança para beijar, mas também retrai a cara, a boca dela é um mar de seca.

Atarantado e com uma raiva mansa, espreita os olhos e mira os dela com mais decisão, só para ver as nuvens, as nuvens melancólicas discorrendo rápidas até, num céu tão azul, tão azul. Não é o escuro da noite, e era de lá, afim, que emanava aquela luz pálida de névoa. Sua face já não amargava como antes, agora só calma, a pele rubra desfeita da compressão que o sol forte comprimia. O astro lá dentro não se mostrava, porém lhe entregavam os contornos flamejantes das nuvens passageiras; preguiças. Sonhou.

Despertou para uma cusparada do vizinho, que vinha de mau grado lhe avisar, os homens estavam indo buscar água mais longe. “Se tiver água vamos querer trazer pra cá, e se for pra trazer precisa de gente pra trabalhar a carga d’água, nem que seja um vagabundo como você, um bom pra nada.” Tropeçou nos pensamentos e foi com eles, e voltaram ao meio dia, sol a pico, sem nada, sem água onde a estrada alcançava. Sem dinheiro pra cerveja. Mãos rachadas pelo quente da tarde, jogou-se ao sofá, mas não suportou o couro batido melando na pele, então saiu e desabou do lado da moça. Tentou fazer dela qualquer utilidade, mas o vermelho violentava seu olhar, e já não se importava, ela era não mais que um pedaço da casa. Uma horrenda decoração. Encarou o céu desanuviado.

Aquele vermelho despejava ao lado e invadia seu olhar, seu viver, via raiva. Acordou de súbito, exasperado, pontinhos brancos debochando no céu. Garganta árida. Levantou nas pernas e logo amoleceu, espantou a idéia de entrar e birrou com a moça. Procurou seus olhos, só achou o céu, rendeu corpo ao chão. Puxou forte a mão dela da cadeira, não conseguiu derrubar. “Mais forte do que parece, hein, beleza.” Montou nela irritado e afundou a cara em seus lábios, só para mergulhar no salgado, seus beiços grudados, ficou com raiva e tentou descarregar, mas era como estar no nada, e isso frustrava, frustrava tanto, não valia o esforço, não valia nada. Caiu ao chão, derrotado. Por ela, por si; pelo céu. O sussurro das estrelas debochava. Era uma troça. Perfuravam suas retinas felizardas na malícia, esfregava os olhos e amaldiçoava, amaldiçoaria, as sombras das luzes perseguindo adentro das pálpebras. Via-se drenado.  Contenda, acima e abaixo contenda.

Então dormido, acordado na noite seguinte, a via de baixo pra cima, as grandes pernas, a pequena cabeça. Um braço jogado fora da cadeira, quase tocava sua própria cabeça. Aquela luz de dia na sua cara, e do outro lado as estrelas cheias de si já o tinham derrotado. Noite a outra apreciava o céu jocoso, noite a outra pensava enquanto dormia, e acordar era alívio. Ora orgânico, ora abrupto, se ajeita nos quadris e prostra mais a frente, encara a moça que enfrentava o céu. “Quem é você? É nada.” Ajoelha e inclina, perscrutando seus olhos novamente, viu as nuvens ora mais negras se carregarem com porte, deslizando ponta à outra daqueles confins faciais, esparramando e entrando na visão, despedaçando e reintegrando; aquele céu ali, aquele céu acima, estava encurralado, e sorria.

Não quisesse arriscar a ansiedade, pregou também os olhos naquilo que quer que ela visse tão irrefutavelmente conspícuo. Como cientes do humor regulado, por vez estrelas não lhe ferem, desfizeram o brilho que cegava, substituíram o negro-azul da imensidão, refletido no mato e nos telhados e no morro. Olharam.

O céu infeccioso.

De outra cidade de nada, outra descaracterizada, veio outro homem de nada, vestido a descarater, veio num carro acompanhado, de outro lugar quieto e revocável, insignificante pronunciado. Veio ao vizinho, berrou “Quer água!” Quero sim, veio resposta, se fez o mal entendido. Vinha de longe, de além da rua e da estrada, de onde não houvesse nada que valesse conto ou causa, história ou emoção. Não tinha água. Às vezes secava, era assim nessa época do ano. Em outra cidade marginalizada de si própria de seus habitantes, os poços secos chiavam e o povo trilhava cede. “Seu palerma, me vem aqui na promessa de água e tem nada! Premissa falsa! Dá o fora daqui seu traquinas descontente!”. E se recolhe para sua propriedade feito atormentado, xingando sob a falta de fôlego.

Pouco notável rapaz se dirige à próxima casa, dando de encontro a uma juventude pasmada. Vai à frente, sobe o degrau e declara sua necessidade por água, só para que diametrais os corpos se desconjuntem desabalados por seu pleito, rodando o torso fora da sombra monumental execrada por um homem ereto. Roda o pescoço e dá de cara com o sol, com um céu sem sol a ele todo entregue. Os olhos ardem e desvia de volta. Dá com a mulher fixa a cadeira e o homem derrapado a seu lado, cada qual com suas pequenas medidas a garantir o deslumbre continuado do tapete celeste, a ele tão abominável quanto a pimenta daquela pele. Murmúrio privado e os pés encaminham ao carro, a face e o torso ainda estranhados, passo em falso, passo de volta, agacha e olha, encara. Os olhos da moça, tão carregados, embaciados numa lenta e transigente espessura, aqui e ali vislumbres celestes, breves talhos do volume cinzento que tão espaçoso corria aquelas órbitas.     

Bateu um vento e subiu o cabelo da moça, deu um susto. Foi-se um pouco e lançou olhar – e o homem por curiosidade? De ali, límpido, desnublado. Assim diria, assim vivia. Correu, que o chamassem do carro e já se foram, ainda passível de quilômetros e penúrias sua empreitada por água. De garganta rachada e olhar ardido.

Inventou a fotografia um passado permeável?

2012

Quisera fosse serendipidade, mas admito que busco com certa frequência os nomes de meus amigos neste maravilhoso engenhoque chamado google. Numa dessas estranhas sessões de curiosidade, tédio e perversão, dei com várias fotografias de um tempo em que não conhecia um desses nomes, em que a combinação de palavras me era nulidade, um tempo quando não estávamos na vida um do outro, e quando ainda o próprio não sabia do porvir dos últimos dois anos que então estavam ainda passíveis.

Como é estranho ver os traços, reconhecíveis traços, de quem se conhece agora mas não antes. Essas pequenas janelas por que invadi um passado que não vivi. Tudo ali se recobre de imediato de uma espécie de nostalgia às avessas, não guardam familiaridade, mas se recompõe por imediato ao que já se sabe, sem comoção alguma te olham de volta como olhariam às paredes que estavam e estão dentro de lá, quase categoricamente apreendem à lógica da sua própria sapiência e versão dos fatos, se embaralham e camuflam para satisfazer a ordem que seu futuro agora lhe impõe, e com que os novos olhos lhe revestem.

Nos traços das pessoas, seu desenho, vejo o substrato do que são agora, deslocado para este outro corpo de plástico, estes bonecos que atuam em diorama para justificar o futuro. As fotos não mostram o que foram, são engrenagens do que está aqui agora, regresso no tempo como profeta do determinismo. Só agora faz sentido falar em destino.

Os atores ali ainda não carregavam os fardos que lhes trago, sua interpretação era descompromissada. Suas relações não podiam ser fraseadas como tal. Muitos laços ali se refizeram multiplamente, se alongaram, romperam, tencionaram elasticamente na periferia da visão, comprimidos no quadro da câmera, invariável. E ainda a mão que aperta o botão! Quem foi você?

Saberia meu amigo dos resultados daquele processo em que se meteu? Ali se comprometia. Sentiria meu olhar atravessando o tempo e o visitando noutro estado seu? O processo em si, provável lhe era um mistério. Mas o caso é que não o vejo. A pessoa que se me apresenta é outra que jamais reconhecerei. A cada foto de cada tempo penso ver quem me agora é próximo, mas o efeito é o mesmo de buscar quem se espera na multidão, falsos positivos em todas as partes, em todos os tempos.

Sua essência deslocada; não sei se por ação mundana ou lances da percepção, seu rosto desconjuntado em cada conforme estranhíssimo que surpreende. Perscruto as imagens com muito apego e quase desespero de ler ali inscrito o futuro que vivo, de também ali ter existido, encontrar um lugar comum dessas realidades cruzadas, desprovar a coincidência, a sorte e o erro. Quietas não me respondem, sequer respeitam.

Há algum tempo que não desenterro do fundo das roupas o gaveteiro que está no armário com todas as fotos de infância. Olhando aqueles álbuns meus olhos transbordavam, por quem eram aquelas pessoas, por não saber tê-las conhecido, pelo futuro estragado, e agora incorrigível, que lhes tinha provido. Mas com quem cuja existência era secreta, quem de fato inexistia, sinto diferente. Estas aparições de anos passados são artefatos arqueológicos, são peças de artes e maquinações de que se sabe apenas o resultado, qual problema exato resolvido que a prova foi queimada e agora se reconstituem as cinzas, podendo tomar muitas formas ainda. Aqui o desenrolar é contínuo, a coisa pretérita boiou à tona noutra vida que é minha, entrei sem convites para a surpresa de vagas similitudes a uma presença concreta de minhas imediações e época. Difícil não perguntar – onde estava este tempo todo? Que fazia antes de desabrochar a meu lado? Que fazia você, replica; entretanto meu caminho foi medido, passado e recontado, ocorreu uma vez e não se repetirá. Foi tudo premeditado. Tudo fora dele permanece cambiável, imutável, altamente cambiável.

Que dizer das fotos despejadas sem carinho nesta expansão enorme e repetitiva, neste labirinto que mero nome navega e leva de volta a quem você nunca foi, querendo contrariar? Posto ali para deleite que não meu, mas público, público e por tanto para meu acesso, tal qual caderno aberto, íntimo ou não está para ser lido, como deve – senão, porque teria escrito? Por mão sua ou não, ficou marcado, meu caro, e o que assim está é meu.

Tudo a partir de agora posso retocar, o que me disser haverá profundidade para trás, as peças são imantadas e te abrigam, nem que por associação, aproximação, ou ainda a alma que quer retornar ao corpo seu agora e cá. Que tremenda malícia querer disjuntar as partes do todo, o molde da obra. As coisas se apresentam todas, tolas e unas como o são, para desvela-las só correndo para trás sem deixar de olhar a frente.

Imagens ou outras manifestações que fossem, de agora até cá ficam massas cruas para serem moldadas, que meus preconceitos cozem e batem, pre, reconceitos dando volume ao inverso, a corpo de outros, pra encher espaço meu, densificado e complexados por essa emanação louca que é a vontade, ganância e enganação de querer te conhecer via dejetos dum tempo que meus olhos não acessam e tampouco enxergam. O que a imagem mostra, você talvez tenha sido, mas o que vejo agora – e o que agora te ponho – é o que de fato é, será. Os manequins nas fotos posam só para rechear-te mutuamente, botar a esperança de autonomidade, contudo a estrutura que te ergue são meus olhos e mãos, meu corpo e os outros. Reconheceremos sua estória? Reconcilio jamais.

Mas oras, está entregue já, sob pena de não haver você pisando no mesmo chão que eu. As redefinições, afinal, são magma volátil que por sob nossas carnes já operam infindáveis, dando um rumo tectônico a essa analogia da terra, um nó outro na falta de compreensão desses processos da memória, identidade, conciliação. De ver o outro ali então quando um então não te existia. Vejo seu passado, que você não viu, e que não vi, mas vivi pela porta da prata agora virtual, digital. Incluo-me, excluída. Permite-me? Ficou tarde, as fotos já vi. E quando olho para meu próprio retrato, vejo também com estranheza penetrante, invado tanto quanto o faço na imagem alheia, casas de bonecas ou de fantasmas, casas decaídas – toda foto é uma ruína para ser explorada, um esqueleto para se pendurar novamente as peles. E o faço de bom grado sem no entanto espantar das narinas o cheiro fétido e a mania de voyeur.

Fixado no papel, nada nos pertence! Já não nos somos ali, é nosso só o que reclamarmos que assim fique e seja. Que é reconhecer. Como renegarmos a doce familiaridade? O que a imagem mostra é só talvez o que tenhamos sido, e no que diz aos snapshots que são a ilha em que sem sutileza atraquei, só você tem mapa, é guia desta coisa desconhecida – seja espaço, tempo, passado, memória, registro e história. No entanto fico aqui perplexa, que as fotos emanam desses espíritos doutros que fomos, para nós e para os comparsas que a vida nos renegociou, pessoas que então se poriam estranhas e com quem nunca nos relacionariamos naquela ou nesta outra forma. E no entanto. Aqui estamos.

Puta que Pariu, olha a lua.

2012

Só com muita falta de vergonha pra tentar tirar foto dessas coisas. Você olha e pá! tá lá a lua amarela e toda bizarra, pela metade, como se alguém tivesse passado estilete no tecido do céu e encaixado uma moeda ou um corte de papel jornal velho resplandecente sei lá.

E cada vez que olha, ela foi um tantinho mais para cima, e aí você olha três quatro vezes de relance, tenta não se desprender da tela do computador mas é difícil; ela é linda linda linda.

Ah, minha janela, sua vista porca só dá em cimento, e mais cimento depois que o vizinho construiu o castelinho modernista dele. Mas por esses recortes repentinos e tensos até que vale a pena. Se eu desligo a luz a lua fica de único chamariz, ficaria, não fosse a bendita maldita mencionada tela.

É praticamente um gomo de limão neon, feito daquela tinta que brilha no escuro. Quanto mais olho mais fica absurdo. Não acredito que isso tava sempre aí, que foi sempre assim.  Não. Agora é certeza. A bichana tá subindo, querendo partir, querendo escapar. Sei dizer por que os cabos e os telhados lá fora são uma bela trama, tenho um grid pseudourbano pra me orientar. O céu também, parece que vai mudando, não sei se clareia ou escurece. Meu olho fala que o tom que tá mudando, que oscila do roxo avermelhado ao azulado por trás do cinza fumaça; (bá, olho que bebe tinta fica uma coisa besta).

Agora já passou dos cabos, vai se esconder atrás da trave da janela. Tá é me tentando a pular fora por ela, encarar o céu de novo. Que lua é essa, parece lua inventada, coisa de descrição de quem nunca viu a coisa; mas será que eu vi? Antes de hoje, antes de agora? E amanhã posso até dizer da bela lua, mas depois só saberei dela enquanto branca e redonda, o céu será azulão para negro e as estrelas pontinhos de novo.

Quer saber, no interior pode ter a via láctea toda, que só na capital para se ter dessas aparições. E ela vai escorregando, vai deixando só as luzes de aviso aos aviões para minha janela, o céu tá esbranquiçado e vem vindo um friozinho e um barulho de avião.

Luz acesa de novo. Acabou o espetáculo. Pois é, nada fica intacto. O recorte e o contraste das sombras parietais lá fora podem ser os mesmos, mas a lua escapuliu pelos meus dedos que nem flexionei pra trazer ela de volta, não que fosse dar certo.

Mas cara! aquele primeiro golpe de olhar foi certeiro. Passando da meia noite e cinquenta e tantos minutos à uma da matina. Foi dos bons. Dos bons.

Ela desaparecida por completo. E eu aqui acordada.

Verbos Pré-Conjugados

2014

Não, não, não. Já não aguenta mais um dia naquele lugar. Ou aguenta, em feito de minguada resistência, que há meses esgotou-se o charme que a chuva, permanente, agora encobre. Nem por isso. O tamanho, a velhice, a aspereza – pensar lhe dá nos nervos, então faz cova no quarto branco a que tem direito e se revira pálpebras abaixo em sono e descanso, em véu de inconsciência tanto mais atraente.

Não. Só quer ir para casa. Entende agora a angústia velada daqueles personagens de romances dotados apenas de quarto, antes que casa, e se rebate e dá passo atrás e levanta o pescoço em esforço de pisar o ódio mesquinho que às vezes quer eriçar sua pele. Mas não. Afunda em tristeza então, antes dar partido à melancolia que a essa raiva mesquinha e zangada que em sua verdade é só aquela birra forte da infância.

O romantismo foi seu ídolo, e agora está despedaçado. Desde que surgiu. É sentimento fragmentário, só se veste nas coisas a partir da nostalgia e o tempo presente jamais habita. Gosto, então, por querer voltar a casa. Voltar a casa é agora seu maior bem e valor, sua maior lição. Condenada e fracassada por sua ambição de fuga, agora encontra calma no retorno e no carinho pouco da cidade que a espera, mas da qual já é peão de jogo. Que há de errado neste acômodo? Afora covardia do comforto, descobrir a casa tanto mais atraente e própria para sua pessoa, ver agora – fugia, de nada, das sombras genéricas que prometem uma população alienada de si, de monstros inventados para que a fuga seja possível, desejável, de si, e si sempre acompanha.

Estar fora por isso mesmo, e agora aprendeu poder fazê-lo fechando os olhos, respirando fundo, indo à praia ou comendo num restaurante de luxo – enorme, enorme – é o mito do estrangeiro. E tão maior fica nos corações que em si trazem peso.

Não, não, não. Não fica mais uma hora do que o necessário apartada de sua pátria, mas pensá-la, pensar retorno, é também tormenta, desgosto. Sabe o que lhe espera. Em maior quantidade e com mais incômodo do que já lhe afeta nestas outras terras. Oras, só de dar com viajantes de suas mesmas bandas, já começa o questionário, aquela linha interminável de um pensamento pronto, comparando-se a lista de experiências e expectativas de um e do outro. Foi a tal lugar? Viu isto e aquilo? Como não! (Que absurdo.) Entendi, fica entendido, não me assole mais, não me aporrinhe com minhas decisões ó tão ingênuas e patéticas. O espírito aventureiro já me assombra, e por muitos anos ainda oportunidades desfilarão à minha frente sem que eu mobilize para lhes agarrar, e tantas outras vezes minha resposta será um soberano “não”, contente com a paisagem que se apresenta sem dela me aproximar.

Mas dizem, na sua casa é diferente, sempre temos essa idéia que mais tarde podemos fazer tal e tal, conhecer a cidade para valer. Quando fora, tem essa urgência – quem sabe quando poderemos voltar? Balela. E balela também quem clama haver sempre tempo para as coisas, saber que vai voltar. Não. Sua lógica é outra. A do querer e a do bem-estar. Quem tira o homem feliz debaixo da ponte?

Malditos os verbos já conjugados, as vontades que não são nossas projetadas na oportunidade alheia, e segundo tantas vozes, desperdiçada. Maldita visão que procura a aprovação e o desfruto, que quer apenas os melhores sabores de que possa partilhar e que tanto se revolta e indigna ao reparar que o fruto que traz está parco (tão parco) deste sumo.

Conjugados. Co-julgados. Já o coletivo se desaponta. Se abre a boca para perguntar das coisas, abra também ouvidos para uma honestidade de todo desprovida de animação – ou então, com sua própria e delicada medida de ânimos e infortúnios. O longo prazo da memória salva a vida chorada e planifica a vida vivida em coisa única – e satisfeita. Nesses olhos, toda experiência é por si plena. Ficamos todos fastidiados, cheios de nós, cheios do nosso, pleno nosso! E chega!

poesia de tipo analógico

2015

Puxo uma gaveta barulho
grude e ranço de pó metálico
pinço letras de pele áspera
mastigando a névoa espessa
com gosto de tinta gráfica.

Olhar em pretérito imperfeito
nas pontas dos dedos calos
à marteladas de anos
o teclado oleoso desgastado
enfiado nas minhas unhas
chumbo sujo
os espaços
adoecendo meu corpo
linhas, parágrafos.
Impropérios rabugentos
todo um zelo improvisado.
Umedeço os lábios, manipulo cíceros
componho batidinhas estalidos;
tiques taques tinindo
na barra de espaço guarnida
encaixe quisera perfeito
enchendo a rama de brancos
matéria dura com que ponto a ponto
abro
luzes milimetradas no retrato da página.
Suor e músculos extenuados
ferramenta desta máquina cheia de
birras;
Do meu ferro fundido em pele depreendem
vapores de óleos carbonatos
solventes
as potências dormem inda rugindo
escritos que secam na mesa.

Laptop em baixo do braço fecho a porta da oficina.

Pego na mochila meus dedos afundam em trinta
quarenta anos se assomando
feixes folhas propagandas catálogos
manuais jornais e sindicatos
escritores e jornalistas animados
um ofício insurgente, fulgor
calor do chumbo derretido risos
velhas máquinas, engrenagens que encrencam
editores que encrencam
profissionais de fino trato
tanto quanto pesadas as mãos mais sensíveis
ao relevo dos livros,
letras.

Tipos como estes que já não se faz,
que marcam como nada que hoje se faça,
mas cuja alma segue vivaz
em cada prelo cada prova
cada minerva operante
linotipos restauradas
heidelbergs retumbantes
orquestra que desbrava
metal papel tinta graxa.

poema da colcha

2017

o mundo-vida é
uma colcha de retalhos
com isso digo:
que tem muito tecido feio
só aqui e ali algum bonito
e mesmo os bonitos
tá cheio de coisa feia em volta
cheio de coisa sem graça
sobra que ninguém quer
que serviu só para isso
pra mais nada
as pessoas olham de longe
acham simpático
lembram da vó
mas isso te digo:
a vó tá mais pra morte do que pra vida
e a vida, a vida mesmo
nem esquenta direito.