Cartas e Convites

Carta para A., Carta para N. e Carta do em volta fazem parte da série Cartas e Convites, que reúne vídeos de curta duração em que a proponente é filmada enquanto escreve mentalmente uma carta para um ente querido. É resultado de uma pesquisa sobre a comunicação pelo olhar desenvolvida na disciplina Práticas Performativas do Departamento de Artes Plásticas da USP, coordenada pelo professor Dr. Mario Ramiro no primeiro semestre de 2014.

Trata-se de um trabalho em processo.

13. October 2014 by mah
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Ensaios – DeepDelvers sessão I

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Acompanhei alguns ensaios da banda DeepDelvers, com um bloco e as cores preta, azul e vermelha nos seguintes materiais: lápis de cópia e dermatográfico, tinta nanquim e caneta permanente. Lápis grafite, bico de pena, borracha e pincéis. 17 folhas, 12 delas com anotações e desenhos nos versos.
Imagens tratadas por Alexandre Lopes.
Obrigada pelas tardes de domingo galera! :)

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PS. Feliz Aniversário! :)

2012/2013

24. November 2013 by mah
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Cubos de Patrícia

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Cubos de Patrícia, parte I

Todo aquele envolvido com arte ouvirá a afirmação em riste, com um toque de tristeza ou indignação, da grande distância que separa as obras de suas reproduções impressas e digitais. Olham feio para a fotografia, mesmo que seja o formato digital nativo da obra em questão; quanto mais fundo seu envolvimento maior o lamento que seja esta a forma que mais avança na disseminção da arte.

Aparte os artistas que tematizam este dilema, a remoção do acesso ao corpo matérico de uma obra faz da fotografia uma ilusão de sua presença; que no entanto ainda permite inspirar-nos e respirarmos um pouco de sua essência. Se Diderot já fazia passeios de suas descrições do que via, levando a maior público as jóias dos salões, porque não celebrar a aproximação gradual que as imagens ocasionais ou documentais possam nos propiciar?

Com muito pesar verifiquei que a exposição de Patrícia Garrido, Peças mais ou menos recentes, se encerrara no preciso dia anterior à minha decisão final de visitá-la. Espalhada por três locais do Porto, era uma espécie de antologia de sua produção, com a promessa pelo poster de trabalhos muito mais interessantes que aqueles com que tive contato nas galerias da Miguel Bombarda. Restam-me as imagens que possa recolher da internet, completá-las com meu especular.

Os grandes cubos de pedaços fragmentados de madeira são as peças de maior expressão online, que creio se traduzir para sua presença física, ocupava toda uma sala e por certo não competia com a presença de quaisquer outros corpos. Parecem grandes como uma braçada, e altos até a cintura. São o chamariz da divulgação da exposição, e quatro ou cinco deles dividem o salão. A primeira impressão é a deste todo, mas este todo feito de pedaços, todo e pedaços muito sólidos e firmes, objetos decididos no espaço, de arestas perfeitamente regulares.

Sua matéria é muito familiar: os pinos, as ferragens e os relevos decorativos aqui e ali acusam o mobiliário doméstico reorganizado em sua condensação. Como se todo um ambiente houvesse de ser resumido num único ponto concentrado, no mínimo de espaço sem podar suas facetas (a perfeita realização do Cubismo?). E se a madeira predomina, fragmentos de mármore* e outros materiais encaixam-se mutuamente nas composições, mantendo uma ortogonalidade empilhada e apertada.

Como chegar nesta forma absoluta? Há tantas possibilidades. Imaginei primeiro uma estrutura de arame ou o que valha por dentro, sustentando as paredes montadas em seu entorno, com interior oco. Mas isto não parece condizer com a presença física e as relações intricadas de suas partes. Seria o peso da solidez apenas uma questão de aparências? Teorizo então um molde, uma contra-forma rígida, contra a qual os pedaços vão sendo dispostos e comprimidos, um por um construindo e preenchendo o volume pretendido, sendo colados uns contra os outros até que o molde possa ser removido. E sempre há a possibilidade de uma construção espontânea, em que artista conta apenas com sua sensibilidade e uma fita métrica para organizar o material à sua disposição de modo a chegar na forma pretendida.

Muitos artistas trabalham com uma recolha de materiais descartados, minando as caçambas pela matéria prima de sua próxima peça. Acumulam o que encontrarem e só depois formalizam o que pode ser feito. Não acredito que seja o caso aqui, a forma cúbica demasiado programada acusa um projeto pontual, um conceito ao qual deve ser corpo e exemplo. Procede que a artista possa, já de idéia definida, ter ido aos ferros-velhos e marcenarias selecionar os fragmentos ideais, mas mesmo isto parece duvidoso. A presença de móveis em seu todo usados como elementos da exposição traz-me outra idéia, a qual me apego: ela haveria desmontado e cortado os mobiliários, até que reduzidos a peças palpáveis para seus desígnios.

Sua intervenção não acaba por aí. Será que a cor que vemos já era parte dos fragmentos, ou foi adicionada posteriormente, camuflando e diferenciando as origens de cada cubo? Parece-me haver, de fato, uma finalização estética neste sentido, mas seu funcionamento e necessidade no todo das peças ainda me são misteriosos.

Sozinha ou com assistentes, ambas as possibilidades me parecem válidas. Não são trabalhos tão grandes e complexos que requeiram toda uma equipe, recorrer a outras mãos fica a critério da artista. Sem dúvida foi projeto bem organizado, com fases de experimentação, desenho e execução, não necessariamente rígidas como a enumeração sugere. Um espaço aberto de ateliê e máquinas de precisão para corte, no entanto, devem ter sido necessários caso se confirmem minhas suspeitas.

E colocarei-as à prova. Terei a oportunidade de ver as obras finalmente em pessoa, quando de minha viagem a Lisboa no próximo mês. A exposição estará concentrada num único recinto, e já daí minha experiência fica distinta daquela que teve o visitante em Porto, que sem dúvida relacionava a própria cidade compactuada à condensação das peças enquanto fazia o caminho do museu à galeria e à Fundação EDP. Fica-me perdida a exposição simultânea, mas ganho (ou descobrirei se é um ganho) pelo conjunto em todo no novo espaço que as peças ocuparão.

Por hora Patrícia Garrido fica-me identificada a seus cubos, como Richard Serra a seu Tilted Arc – me abstenho aqui de comentar aqueles trabalhos cujas fotos foram parcas em me permitir adivinhar o caráter, podendo apenas imaginar a nova rede de relações a traçar pela comunhão deste espaço. Ainda, me encontrarei mais equipada naquela ocasião, para além de minhas especulações, pelos textos e informações de praxe que circundam toda mostra.

Fotografias, terão me dito a verdade? Atiçam assim meu interesse e a mesmo passo negam-me o aprofundamento, sua lisura feito barreira. O quanto de ti é possível derivar da realidade? E quanto permance em corpo tão sombrio quanto o pouco que podem fazer conhecer? O que, para além de vocês e ainda para além das obras, em processo e em pensamento permitiu estas existências? Fica a curiosidade.

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Cubos de Patrícia, parte II

Em Lisboa fui ter com os Cubos de Patrícia.

Espiei-os de fora do teatro, vi-os recostados descansados no ninho negro que lhe ajeitaram, um salão de vigas e janelões pintado de preto por todo, anexo ao Teatro da Escola Politécnica. A exposição só pode ser visitada a partir das 17h, (forçando a iluminação artificial) e foi transposta de Porto sem a pompa expansiva e completude retrospectiva que lá tinha.

Aqui não há com o que competir: lost in translation ficam as demais peças da artista, tornadas a suas respectivas coleções e galerias, sacrificadas pela diminuição drástica, mas compreensível, do espaço expositivo disponível. Apenas os desenhos, em sua leveza descompromissada, assoviam como quem não quer nada nas paredes que abrem para a montagem. Se qualquer coisa, apenas reafirmam a existência muda de princípios construtivos a reger e pensar esta produção, desdobrando-se em linhas que preenchem seu espaço dado na folha de papel. E daí para o mundo, em silêncio.

A despedida de suas companheiras e a transferência para esta negra ascepscia deixa tanto mais relaxados estes cubos, já sem alicerces que prestem de apoios afora o próprio caráter. Cortam relações e adensam-se para si mesmos, reis de jura imponência sem reinado.

Reinam o que podem – silêncio, condensação. São preenchimento meticuloso, esmero e precisão desafiam sua própria solidez. De perto são mar de texturas, fragmentos marcados e riscados segundo sua própria história secreta que, como couraça, cada cubo parece guardar. E se representam uma desmontagem obssessiva que dê gênese a si, cada qual com personalidade, voz e território, rebatem-nos ainda com seus segredos originários, orgânicos, vemos suas peles sem saber o que há por dentro e almejamos desmontar também a nova forma.

O processo de factura é, afinal, a real obra. Daí a vontade de nova dissecação. São os bem portados restos mortais do processo brutal que os resulta (e aqui o texto da exposição enuncia o que já poderíamos imaginar: “cortar, empilhar, distribuir, encaixar, colar, sem desperdícios” as matérias de “interiores de casas”). Todo tempo afetivo que viveram estes mobiliários está aqui, antes que resumido, esvaziado e trancafiado por uma forma estética suprema. Tentam as texturas vibráteis comunicar-nos esta essência perdida? Móveis ao Cubo, mas a potência é a desta força violenta e remodeladora, a reconfiguração que coloca à mão o que antes dependia de um ímpeto narrativo, ou associativo – mobiliário codifica-se por seu uso e história num ambiente específico, afeições que a arte dispensa.

Vejo-me andando num campo de monstros da Dra. Garrido, vivendo e comunicando-se entre si, estabelecendo hierarquias e posições em sua aldeia. Sua língua nos é secreta, e sobra-nos a suspeita de que advenha do que nos era dado por garantia. Pedaços tão familiares recompostos numa ordem estrangeira sob medida. Que oposição nos fazem, criaturas? Oras, pisque duas vezes e serão novamente não mais que cadeiras e mesas, não mais que coisas inertes e quietas, mobiliários então de um sistema de arte, de um mercado e de uma cultura auto-reflexiva.

Se a sedução da fotografia nos faz desejar os segredos da realidade matérica, a presença física factual veste-se de metáforas, porquanto os objetos de arte se nos apresentem feitos e imutáveis: é só pela trama mental que tornamo-nos capazes de alterá-los dentro de um projeto que não preveja outras interações. Os Cubos, como qualquer coisa objetiva outra, são a si próprios com o peso e consequência que lhos cabe: existem. Porquanto o estudo seja distinto do sorver, já não me interessa, em estar aqui para sua presença, os pormenores desta existência. E estando aqui, olhando-os, reconfirmo nossa realidade mútua pelos mesmos termos que nos distanciamos. Estando feitose apresentados, interessa-me apenas o que possam me oferecer e o que deles possa extrair.

Fazemos a troca e nos despedimos.
E já que estou aqui, vou mesmo é assistir a uma peça.

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*não havia, afinal, mármore nos cubos, mas encontrei, com felicidade, pedaços inteiriços de estofado.

créditos pelas imagens:
exposição Porto: Sérgio Reis e Fundação EDP
exposição Lisboa: prayadubia.com

Outubro/Novembro/2013

17. November 2013 by mah
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A Pedra da Montanha

Vencido, já sem força para usar as chamas ou envergar a cauda, rouca saiu a voz do dragão, dirigida a um vaidoso herói dos humanos e matador das bestas:

– Que vergonha perecer sob a lâmina de um homem tão ordinário. Que se gravem essas palavras em meu túmulo e também no seu; de heróico não tem nada, você que age por dinheiro e fama; de corajoso não tem nada, você que se esconde do destino com um escudo; de forte não tem nada, você que tanto depende da lâmina. Vai, dá o golpe de misericórdia neste dragão vermelho que um dia foi glorioso; prefiro morrer a ver-me derrotado por um homem mais imprestável que uma pedra!

​E o homem obedeceu, empalando sua espada pela cabeça do ser moribundo, cessando seu desgosto. Mas o desgosto do primeiro apenas se entremeou no segundo, incapaz de ver mérito em seu feito por mais que os vilarejos locais o afogassem em gratificações, elogios, mulheres e riquezas.

​Então, foi consultar-se com o chefe da maior aldeia; este lhe disse não ver fundo à anedota do dragão; pedras eram utilíssimas para serem atiradas e para se construírem fortificações. Não satisfeito, o herói questionou onde poderia encontrar uma pedra à altura de seu desafio. O chefe não soube lhe responder; apenas recomendou que subisse a montanha, uma pedra em si só, e interrogasse o velho que mora no topo, que dizem ele ser descendente dos deuses.

​O herói escalou a montanha por um dia e uma noite, só vendo em seu caminho rochedos e pedregulhos. Desabou em sono no primeiro patamar que cruzou. Ao amanhecer, se encontrou ao lado de uma pedra, um marco, tão alta quanto ele e de mesmas dimensões. O objeto parecia místico.

​O cascalho cortando seus pés e o sol queimando sua face, o couro das roupas causando horrível atrito, empunhou sua espada e berrou, irracional:
​- Marco de pedra no meio da montanha! Não é mais imponente que eu! Passa a vida a erodir!
​A pedra nada fez.
​- O que faz de você, no conceito de ancião dragão, mais digno que o herói que vos fala!?
​A pedra nada fez.
​- Debochas de mim em seu silêncio, ó pedra!
​A pedra nada fez.
​- Te desafio! Provo meu valor!, provocou.
​A pedra nada fez.

​E como a pedra nada fizesse, ansioso, segurando o escudo bem alto, incerto, o herói brandiu sua espada e avançou para a pedra; a superfície dura desta destruiu a lâmina, o impacto mandou estilhaços para o céu e para a cara do homem, cujos olhos arderam.

​A dor, e a certeza da desfiguração, fizeram o corpo do homem se contorcer de encontro ao chão, cegado pelos fragmentos metálicos em seus olhos; berrou de agonia, ficou rouco e emudeceu. Amargurou-se rente ao solo por um dia e uma noite.

A pedra nada fez.

​Ao seguinte amanhecer, foi acordado por pássaros e ouviu o correr d’água de um riacho. O vento lhe confiou ter o único habitante da montanha falecido. Então o herói tateou seu caminho até a cabana do velho, e, incapacitado, lá ficou.

​Seus cabelos e barba cresceram longos e brancos. Cego e emudecido, vive em meditação. Quem vai a seu encontro recebe os pesadíssimos olhares foscos de um sábio e herói. Os viajantes o chamam Pedra da Montanha. Dizem ser descendente dos deuses.

2009

11. November 2013 by mah
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Louise x2

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com leite
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Oh Louise,

 

Louise Bourgeois, oh, Louise. E o querer ser ti, Louise. Pode outra reação teu trabalho suscitar? Louise Bourgeois, quanto mais sei de ti mais entranho-me, e quanto mais vejo tua obra, entranho-me mais, e mais e nisto que já não é ti mas de que fez o parto. Ora Louise, te ofenderia essa maternidade declarada? Se usar de outras palavras, num jorro ou despejo poderia falar-te? E então nessa febre a tentativa de destilar teus coágulos, bem desenhados e projetados, mas sempre um recolhimento do teu corpo, risca da cabeça às mãos.

Ora Louise, o que vejo é o que ti permite. O que ouço é o que fala, o que escolhe falar, e se nos teus objetos faz irromper a emoção por fim, desrraigada, que há eu de fazer senão encolher-me nestas presenças? Teu assombro, assim materializado, desfaz o entorno que tenta encerrá-lo para existir em plena força e solidez de forma, em seu exotismo e suntuosidade, e então como há de ser de teu agrado já não há Louise, Louise é sombra, é as letras grafadas na parede da exposição, e Louise emancipada persegue noutro canto o próximo acúmulo ou destilamento a abastar a próxima galeria, a abarrotar o outro quarto e revestir espaço destes humores febris.

Mas e se fazendo o destraçar de origem e produto que a ti é impossível Louise? Se nego minha atenção ao volume bronco que tu sustenta, teu caráter, tua presença, volto-me à tua obra para o que nela encontrar? Encontrar-me, escondida aos cantos, o básico e esperado. Encontrar as matérias mais próprias à configuração que lhes é dada, por sensibilidade e habilidade. Encontrar objetos de existência autônoma e fincada que no entanto não cessam a ressoar fantasmas de histórias que busco em ímpeto objetivo de ti dissociar. E volto-me a ti desta experiência com uma desconfiança que antes não me inspirava, com os olhos estreitados de quem a boca só dúvidas pode professar.

Se o inconsciente é a mina e a obra a jóia lapidada, então teus processos hão de ser velados a si própria. Como preservar o inconsciente quando se trabalha ele exaustivamente? Procede que a facção de cada peça seja um processo transformativo deste outro nível, e nesta reciclagem encontra tua saúde. Disto não se tira diretriz alguma para artista ou aspirante, apenas confirma a parcela subjetiva que haverá de sempre nos iludir. Apartando também a carga que traz o espectador, o que sobra nesta estreita passagem são criações especulares, capazes apenas de entrelaçar as duas consciências que com pouco êxito tentamos afastar.

Louise, não sou crítica, cometo o pecado de querer generalizar tua obra, de querer apagar o contexto, de tentar captar apenas o sumo que permite vida a uma obra de arte, seja ela tua ou de qualquer alguém. Mas minhas lentes são plenamente por ti tingidas, intenções tem pouca força ante o fluxo de nossas origens e repertórios, influências se assim prefira, pegajosos a tudo que produzamos – mas Louise! Tu faz tua própria figura pública, escancara-nos os motivos de ser dos quebra-cabeças que nos apresenta, com a felicidade de ter resolvido o problema conta-nos a resposta sem titubeios, imperando magnâmica a toda tua obra! Autobiografia!

Tão logo nos explicítam as relações, fixamo-nos com outra intensidade na artista que se nos apresenta, dissolve-se todo pressuposto de distância que só tua palavra recupera, não sei se crê ou se projeta, mas fica que a obra não é ti, que não te representa, que obra alguma há de seu artista representar, Louise, será que não repara que tudo que atirou fora de si, desencarnou, só aos poucos e com fome começamos a sorver? Onde fica nosso espaço assim, se liberta de tuas experiências trata-as com abertura que tanto sufoca o que possamos trazer à mesa…

E se atacou a arte em seu seio, e a ti em teu seio, e agora a nós em nossos peitos para cravar lugar de direito à grande emoção que te descontrola, que fica de nós, invejosos e desejosos desta compreensão catártica que lhe permite o trabalho? Haverão muitos caídos, atingidos com tal eficiência por uma afinidade de passados que não lhe compete, e ainda os que empinarão os narizes sem tentar debulhar-te, e dentre eles a grande horda a que pouco sobra que não a adimiração de tua força e a perplexidade de tua existência.

Louise assim o quis e assim o fez, Louise é a obra!

 

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com água
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Persona Artista – Louise Bourgeois

 

Devemos carregar o que os artistas nos falam com muita cautela. O cuidado de tratar suas profissões como algo delicado e precioso nos levará uma admiração e confiança desmedidos; seu manuseio, antes, deve ter a segurança e respeito de quem aos braços leva coisa que lhe é nociva, bruta quando oferecida a nossos ouvidos.

Louise Bourgeois é uma figura ativa que desde o início de seu interesse pela arte percorreu as milhas necessárias para se desenvolver e estabelecer. Participou de grupos de artistas dos mais influentes, afiliou-se a diversas instituições de ensino, buscou cara-a-cara, de corpo, as experiências que nutririam sua prática. E deste cara-a-cara surge uma figura pública, a expressão com que podemos lidar e trocar, que nos extende a palavra e que se envolve no mais profundo com a aquilo que nos permite apreciar de sua obra. Em uma artista como Louise, não somos capazes de verdadeiramente delimitar pelos velhos binômios arte-vida, público-privado.

O que não significa que estes mecanismos deixem de agir. Tudo que Louise nos apresenta é, afinal, selecionado, uma medida de claro controle dentro do aclamado inconsciente que rege a crítica de sua produção. Entrar em contato com os fundos de sua pessoa e percepção pode permitir-lhe criar as peças de nosso alto interesse, mas não é deste subconsciente que acontece sua organização e apresentação. O que lidamos aqui é, antes que um puro furor emocional materializado, um jogo de interfaces.

Uma parcela está embutida nas próprias obras. Um espaço que cria possibilidades fixas de movimentação (como é o caso de I Do/I Undo) já nos condiciona a receber sua experiência de maneira particularizada. A seleção de obras, curadoria e as simples decisões de expor neste ou naquele museu, associar-se a este ou aquele grupo etc, implica um distanciamento das forças criativas para poder geri-las. A pessoa Louise com que interagimos é sempre um trabalho de edição calculado a permitir o melhor entendimento e integração de seu trabalho.

É o caso do documentário The Spider, the Misstress and the Tangerine, que a partir da própria artista não se dá ao luxo de apresentar uma narrativa destoante do viés autobiográfico declarado – o que é esperado, com a presença de Louise. Usar as palavras do artista como âncora interpretativa para sua produção, no entanto, dificulta o processo de troca e identificação que a arte deve suscitar, colocando o espectador numa posição de espanto e assombro permanentes, fixando-o na figura da artista por trás da obra antes de processar aquilo que de fato está à sua frente.

Louise já nos fornece as soluções para seus puzzles, e se a escultura é um problema a resolver, o público fica excluído deste processo, restando-nos apenas várias tentativas de criar relações e interpretações para que as respostas dadas e corretas finalmente encaixem. Ao tratar questões pessoais abertamente, uma vez que já as digeriu em parte pela produção, ela cria um contexto hermético que atrai uma atenção e interesse particulares ao que se apresenta pronto e estabelecido para nós. O mesmo interesse por descobertas científicas cujos experimentos não compreendemos.

E no quanto é agressiva, admite-se neste papel de luta e assertividade, que é para além de um “lugar no mundo”, pela plena aceitação do que tem a nos mostrar, pelo impacto que irá nos causar, por sua experiência pulsante que leva a segundo plano nossa vivência exterior a ela.

Se Louise clama máximas e generaliza, criando coesão e coerência que alojem seu trabalho no contexto maior da arte, não podemos pagar na mesma moeda assumindo suas afirmações verdades para o plural de artistas que atuavam em seu tempo, e ainda atuam. Longe de acusá-la falsária maquinadora, ou de tentar deslegitimizar-lhe, me interessa este dilema de interpretação, da medida de poder que os artistas tem sobre sua própria obra e como ela é recebida. Tivesse Louise uma persona social reclusa, iríamos aceitar tão bem o que nos trouxesse, sem o caráter autobiográfico plenamente reconhecido?

 

Outubro/2013

20. October 2013 by mah
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Praias

(c) Amaurilo Silva http://www.flickr.com/photos/76000212@N05/

(c) Amaurilo Silva http://www.flickr.com/photos/76000212@N05/

Conjunto de pinturas inscritas no 21º Programa Nascente da USP, sob o projeto Calmarias: Conjunto Vazio, Praias e Acúmulos. Foram selecionadas como vencedoras na área de Artes Visuais. Três delas participaram da 21ª Mostra Visualidade Nascente entre junho e julho de 2013 no centro Universitário Maria Antônia. Segue o texto que acompanhou a exposição:

No primeiro semestre de 2012, tive uma primeira experiência de levar minhas pinturas e anotações de paisagem em aquarela e cadernos de desenho para suportes maiores e tintas mais encorpadas. Parti de esboços a lápis e tinta diluída sobre papelão Hörlle, selecionado por sua despretensão e tonalidade escura, sóbria, que empresta à base e enquadramento das pinturas. São pontos suspensos no tempo, influenciados intensamente por lembranças de viagens à praia com amigos, memórias conciliadas em nova realidade pela ação de seu retrato. Espaços de ação desacelerada, como é o lazer daquela vida diária. Busquei criar uma construção da cor e espaços figurados que integrem os traços gráficos do esboço a outros estruturantes sobrepostos pela tinta,

“numa confluência que deixe emanar os ares da distância entre lá e agora”,

(para dizer do que ali vejo).

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Especificações técnicas:

Praia I – 43 x 53cm
Óleo sobre papelão Hörlle.

Praia II – 43 x 53cm
Óleo sobre papelão Hörlle.

A Sala – 86 x 106cm
Óleo, lápis dermatográfico, grafite, giz e caneta hidrográfica sobre papelão Hörlle.

Para o Mar – 53 x 86cm
Guache, carvão, giz, lápis dermatográfico e corte sobre papelão Hörlle.

19. August 2013 by mah
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Geleiras

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Pinturas a guache em Canson A2 e A4.
As duas maiores partem de fotografias da internet; as menores são filhotes da imaginação e da vontade de fazer mais.

Fotos tiradas em outubro de 2011 durante o CAP011, uma iniciativa dos alunos do curso de artes plásticas da ECA-USP para ocupar nosso departamento com trabalhos em exposição. Escolhi o teto inclinado do vão da escada, um lugar de passagem e descanso entre ateliês.

18. August 2013 by mah
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Um Lugar Qualquer

Por ser um dos, senão o último filme que eu assisti no agora defunto Cine Belas Artes, obviamente minha parcialidade se desvalida, a experiência ganhando automaticamente uma camada de carinho.

Isso dito, o desgosto que esse filme deixou na boca para mim e meus colegas – muito bem justificado dadas as circunstâncias em que fomos vê-lo, e pouco sabendo além de uma imagem mental do excelente pôster e uma vaga descrição – deu descanso alguns meses depois, quando ao invés de esquecido, vi esse filme retornar a minha mente sob outro argumento (para evitar o velho clichê da iluminação).

Logo no começo, já foi um grande alerta quando, de brincadeira, imaginamos se o filme inteiro seria a primeira cena, em que, sem nem ter o protagonista apresentado, se vê apenas um carro dando voltas e voltas numa pista desolada – e voltas e voltas. Uma cena longa que abusa da hospitalidade do espectador, mas que o prepara, inadvertidamente, para o filme a seguir. De certa forma, ele nunca sai dessa primeira cena, e é de todo tão desgastante, cansativo, desnecessariamente longo e irritante quanto o momento em que nos damos conta que sim, aquele carro continuaria a dar voltas.

Mas é justamente essa insistência em ter tomadas longas e sem ação que diferencia esse filme dos restantes. Ao invés de propor uma trama ou questão a ser trabalhada, a ser pensada, ele simplesmente arrasta a realidade pela frente de nossos olhos. Não é um filme de entretenimento e tão pouco um que traga grandes reflexões. Ao invés, o espectador é posto numa posição estritamente passiva – a mesma que a do protagonista, e está aí sua excelência.

Um Lugar Qualquer não mostra uma fantasia realista, um episódio, um ocorrido, mas sim uma realidade – não A realidade, mas uma realidade mais próxima da vida cotidiana de sua audiência que qualquer outra obra cinematográfica de ficção com que eu tenha entrado em contato. O filme faz uma mímica da vida muito mais fiel que os dramas e comédias e se contenta em ser um corte sem começo, meio ou fim, apenas expondo o mundo pessoal do protagonista sem ousar ter a pretensão de alterá-lo.

E essa é a realidade, do filme e da vida: uma situação insatisfatória, mas confortável, ladeada por uma parada incansável de oportunidades de transformação, que, mesmo quando reconhecidas, não são acolhidas em favor do que é familiar. Mesmo quando uma pequena aventura parece ocorrer, em pouco o gosto da novidade se esmaece e o que parecia extraordinário se integra a um cotidiano insosso e o protagonista se vê grogue novamente, abatido por uma realidade em que sequer consegue aceitar a urgência da mudança.

Ele passa o filme todo em negação, e mesmo quando sua vida parece estar à beira de uma mudança radical, seus sentimentos anteriores predominam, culminando no final insatisfatório que fez com que alguns de nós, como nossos olhos cínicos, mesmo odiássemos o filme – todo o marasmo por nada, nenhuma revelação, nenhuma mudança de vida, nenhuma esperança de resolução, morais ou lições aprendidas – apenas um homem patético em cheque e aparentemente cego para isso.

Aí está outra beleza do longa: todas as oportunidades e reinos de possibilidades que poderiam dar início a algum desenvolvimento dos personagens ou da trama são desperdiçados, ou então tratados apenas superficialmente, e o que é obviamente um ticket para uma montanha-russa de emoções segundo a perspectiva do observador passa batido para os personagens, que continuam com suas vidas como usual, como o que se habituaram de ter pelo usual.

Longe de ser coberto de significações e símbolos, de gestos mínimos e detalhes essenciais, é um filme muito raso, mas com um buraco daqueles de coelho, ou pelo menos com um buraco para certo tipo de espectador, um espectador que aplique o que vê na tela a sua própria vida – um buraco que pode o levar longe na auto-avaliação, porque, afinal, talvez a questão mais interessante que esse filme possa trazer é simples: não estaríamos, em nossas próprias vidas, nos portando segundo aquele personagem tão insuportável? Presos a nossa perspectiva unilateral, não estaríamos também deixando de agarrar as iscas que virariam nossas vidas de cabeça para baixo, que nos fariam ver o mundo de um jeito de diferente, de um momento memorável a uma expansão de consciência? Estaríamos optando pelo familiar mesmo quando isso significa suportar a miséria que há tempos se instalou, estaríamos nos condicionando à passividade?

Claro. Muitos outros autores propuseram essas mesmas ou similares questões, talvez mais pontualmente, mais espertamente, e talvez essa interpretação esteja longe do que o filme queria ser, talvez a subjetividade tenha dado um gás para se chegar tão fundo com a experiência parca que o filme oferece. Talvez toda a sutileza e atmosfera sejam fingidas da minha memória – desde então não o re-assisti e nem pretendo. Mas a impressão geral que o longa-metragem deixou, ou pelo menos que se formou esse tempo depois, é a de um filme que toma o desafio de exibir a vida de seu personagem de uma maneira integral, sem fazer cortes específicos que acabam ignorando os motivos dos acontecimentos – da história, da narrativa – e suas conseqüências, imitando a vida – afinal, é sim muito excitante ter uma experiência, digamos viajar ou sair para beber uma noite, mas raramente tomamos escolhas que mudem o rumo de nosso dia-a-dia, esses lapsos, não importa quão freqüentes, se tornam experiências isoladas, pequenas narrativas vagamente inconseqüentes – como a maioria dos filmes de ficção comerciais.

Um filme que é tão entediante quanto o próprio tédio do qual tentávamos escapar quando decidimos assisti-lo. Aí algo que não se vê sempre.

Julho/2011

18. August 2013 by mah
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Escuro entristecido (Finlândia)

Quando chega o inverno na Finlândia, os dias ficam escuros. Às nove da noite ainda tem sol lá fora, e aí vem o inverno. Minha prima, morando lá, diz que o inverno traz consigo uma temporada de suicídios. Não sei se ela disse o inverno. É julho, e ficará escuro. Não sei quando. Quanto. E quando fica escuro, aumentam os suicídios e isso é um problema para a Finlândia, e para os outros países do norte europeu.

Mas na Finlândia em especial. Porque já havia ouvido falar dos suicidas finlandeses e então minha prima mencionou o assunto, então na Finlândia isso é um problema. Nunca fui para a Europa. Queria ver esse escuro. Lembro-me de James Whistler, que não era finlandês mas sabia do escuro. Eu também sei do escuro, então queria ver esse escuro da Finlândia como é, quero ver, e também quero ver a neve, quero estar no frio.

Mas não acredito que os finlandeses se suicidem por causa do escuro, que a noite estendida lhes traga melancolia, infelicidade ou o que seja. Não acho que vejam o escuro como negativo, a menos que do tipo fotográfico. Pessoas se suicidam no mundo todo, por todos os motivos. Por serem pessoas.

Acho estranho partilhar esse peso para com o clima. O escuro está por toda parte, em todo lugar, sob toda a forma. Como será a escuridão da Finlândia? Competirá com a de qualquer outra noite?

Sinto o ar claro. Claro e leve, e assim vejo a escuridão finlandesa, e a escuridão brasileira, e o clima onde quer que esteja.

Nunca senti frio. Frio de rachar. Nunca me senti como uma pedra de gelo e nunca me vi obrigada a vestir mais do que um casaco de lã e uma camiseta. Tampouco tive de usar duas calças, ou meia-calça por baixo da calça. As meias longas foram sempre de brincadeira. Como será a escuridão finlandesa?

As pessoas que moram lá também ficam tristes ou estressadas, têm os mesmos problemas no inverno e no verão. Tristes, felizes, ou tristes chove, venta, amanhece, o sol vai à pico, neva e fica escuro. O clima está lá fora e a nós nada deve. O sol se espreguiça e aconchega, lança um raio pela nossa face e a toca docemente, relaxando os músculos e convidando um sorriso. No escuro os finlandeses precisam sorrir sem o sol. Não. Quero estar no frio. Os suicidas não se matam por causa do clima. Já haviam se levado a isso.

Apenas deixamos o clima entrar. Fecho os olhos para sentir o frio e para ver também a escuridão dos finlandeses. O que deve ser, ver sua emoção resguardada ou secreta, refletida na tão translúcida escuridão, que traz certeza. Os suicidas conhecem melhor a escuridão. Acompanham-na quietos e sabem prestar atenção. Não saibam talvez, olhar de volta, falar de volta, mas também talvez escolham por não. Sabem a medida do frio, são especialistas em exatidão.

Muitos suicidas não se matam. Na Finlândia, no Brasil e em todos os lugares, há os suicidas que não se mataram e não quiseram morrer. Ou ainda os que morreram sem morrer. Morno. O sol que brilha apaga e afaga. Rola sobre a pele, mas é opaco. Brilha tão branco e intenso que recusa deixar-nos a visão em paz. Pode mesmo o escuro das noites na Finlândia ser mais escuro que o de qualquer outra noite?

Setembro/2012

18. August 2013 by mah
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Sereia

sereia

Livro ilustrado com Marina Castro em 2011; 16 imagens em grafite e aquarela. Desenhamos e colorimos juntas, trocando os papéis de acordo com um cronômetro de poucos minutos. Foi muito divertido e espero que possamos colaborar de novo =).

As imagens são contínuas, conectadas em sanfona.
Em adição ao original, foram feitas duas cópias em papel fotográfico.

marina2

18. August 2013 by mah
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